quinta-feira, 15 de abril de 2010

JUVENTUDE

Os dois e meios anos que se seguem formam curioso intermédio na vida de um poeta. Poe passa o tempo, entre novembro de 1827 e dezembro de 1828, cumprindo os deveres militares de um soldado no Forte Moultrie. O forte estava localizado na ilha de Sullivan, à entrada do porto.

O jovem soldado tinha muitas horas de lazer, que certamente gastava vagueando ao longo das praias, escrevendo poesias e lendo. Seus deveres militares eram leves e completamente burocráticos, pois os oficiais logo notaram que ele se adaptava melhor aos serviços de escritório do que à prática com canhães. Deste período e do que ele fez e imaginou, a melhor recordação é "O Escaravelho de Ouro", escrito muitos anos mais tarde, mas repleto de cenas de cor local exatas.


As obrigações de Poe certamente o punham em estreito contacto com seus chefes. Ele era diligente, sóbrio e inteligente; e uma promoção logo se seguiu. Em breve o encontramos destacado para serviços especializados, primeiro passo fora da posição de soldado raso. Ele mesmo, porém sentiu que sua vida estava sendo desperdiçada e, em certa época de 1828, reatou a correspondência com seu pai de criação em Richmond, com o objetivo de solicitar uma reconciliação e volta à vida civil.
Embora as cartas de Poe fossem tocantes, rogativas penitentes, seu tutor mostrou-se obstinado e o jovem permaneceu no seu posto, até dezembro de 1828, quando seu regimento teve ordena de seguir para o Forte Monroe, na Virgínia. Vendo que o tutor não lhe permitia voltar à casa, concebeu ele então a idéia de entrar em West Point. Mguns dos oficiais de seu regimento, e, de modo particular, um cirurgião, se interessaram por ele e trataram de exercer pressão sobre John Allan.

A 1o. de janeiro de 1829, Poe, servindo ainda sob o nome de Perry, foi promovido a sargento mor de seu regimento, o posto mais alto para um engajado. Suas cartas para casa tornaram-se mais insistente e a elas acrescentavam-se agora os rogos da Sra. Allan, moribunda. Desejava ver seu "querido menino" antes de morrer. Por mais estranho que possa parecer, John Allan manteve-se firme até o último instante. Por fim, mandou chamar seu filho de criação que se achava então apenas a poucas milhas de Richmond; mas era demasiado tarde. A Sra. Mlan morreu antes que Poe chegasse à casa e, apesar de seu último pedido de não ser enterrada senão quando seu filho de criação voltasse, seu marido ordenou que se fizesse o enterro.
Quando Poe chegou à casa, poucas horas depois, tudo quanto ele mais amava se achava na sepultura. Diz-se que sua angústia diante do túmulo foi extrema. A Sra. Allan, todavia, arrancara de seu marido a promessa de não abandonar Poe. Realizou-se então uma reconciliação parcial e o Sr. Allan consentiu em ajudar o plano de Poe de entrar em West Point. Escreveram-se cartas para o coronel de seu regimento arranjou-se um substituto e o jovem poeta conseguiu dar baixa do Exército, a 15 de abril de 1829. Voltou a Richmond para passa pouco tempo. Poe não demorou muito "em casa". Arranjou, em grande parte por solicitação própria, numerosas cartas de recomendação para o Departamento da Guerra.

Armado delas e de uma carta bastante fria de seu tutor, que afirmava: "Francamente, senhor, declaro qu ele não tem parentesco nenhum comigo", partiu, mais ou menos 7 de maio, para Washington, onde apresentou as credenciais, inclusive numerosas recomendações de seus oficiais, concebidas nos mal elevados termos, para o Secretário da Guerra, Sr. Eaton. Longo período de quase um ano decorreu, durante o qual esteve em dúvida sua nomeação para West Point.

Durante a maior parte deste período, de maio de 1829 até o fim daquele ano, residiu ele em Baltimore. Seu pai de criação enviava lhe de vez em quando pequenas somas, o suficiente apenas para 25 mantê-lo vivo, e continuava frio e suspeitoso de suas boas intenções relativas a West Point.

Entretanto, o jovem Poe, depois de ter sido roubado por um primo num hotel, procurou abrigo junto à sua tia Maria Clemm, irmã de seu pai. Em casa desta boa mulher, que foi desde o princípio seu anjo da guarda, encontrou Poe sua avó, a Sra. Davi Poe Sênior, que era então mulher idosa e paralítica, seu irmão Henry e sua prima primeira Virgínia Clemm, menina de cerca de sete anos de idade. Mais tarde, veio ela a ser a esposa do poeta. Durante esta estada em Baltimore, esforçou-se Poe em tornar conhecido seu nome literário.

Pouco depois de sua chegada, nós o vemos visitando William Wirt, que acabava de retirar-se de uma ativa vida política em Washington, autor das Cartas de um Espião Ingles e homem de considerável reputação literária. Poe deixou com Wirt o manuscrito de "A Aaraaf", e dele recebeu uma carta mais de conselho que de elogio. O incidente, porém, mostra que ele tinha em mãos, então, o manuscrito para um segundo volume de poemas. Consistia este de numerosas poesias que tinham aparecido no primeiro volume, bastante revistas, e algumas novas.

Seguiu então para Filadélfia e entregou o manuscrito a Carey, Lea & Carey, famosa firma editora de então, que exigiu uma garantia antes de imprimi-lo. Poe escreveu a seu tutor pedindo-lhe auxiliar com a soma de cem dólares a publicação do pequeno volume, mas recebeu uma negativa colérica e uma censura severa por pensar em tal coisa.

A 28 de julho tinha ele, porém, ao que parece, arranjado a publicação do volume em Baltimore, e escreveu a Carey, Lea & Carey, retirando o manuscrito. Por intermédio de amigos e parentes de Baltimore, pôde seu nome chegar aos ouvidos de John Neal, então influente jornalista em Boston, e a obra a aparecer recebeu algumas noticias encorajadoras nos números de setembro e dezembro do Yankee de 1829.

O volume mesmo, intitulado Al Aaraa/, Tamerlão e Poemas Menores, foi publicado por Hatch & Dunning, em Baltimore, em dezembro de 1829. Um tanto abrandado por este êxito e a fama que ele atraiu, porém muito mais pela certeza de que seu filho de criação estava prestes a receber sua tão retardada nomeação para a Academia Militar, permitiu o Sr. Allan que Edgar voltasse a Richmond, onde ele permaneceu de janeiro a maio de 1830, na "grande mansão". Sua vida em Baltimore tinha sido assombrada pela pobreza e a volta a seu antigo modo de existência foi, sem dúvida, bem-vinda para Poe.

O Sr. Allan, porém, tinha razões particulares para desejar que seu pupilo estivesse fora de Richmond o mais cedo possível. Havia reatado relações íntimas com uma antiga companheira, após a morte de sua mulher, e achava-se agora esperando um malvindo acréscimo aos seus filhos naturais. Renovaram-se as brigas com Poe. Depois de uma delas, peculiarmente amarga, escreveu Poe uma carta a um antigo conhecido do Exército, um sargento a quem devia pequena soma de dinheiro.

Nesta carta, permitiu-se ele fazer uma infeliz afirmativa acerca de seu tutor. Esta carta foi mais tarde usada pelo homem para cobrar do Sr. Allan a quantia que lhe era devida e foi a causa final da expulsão de Poe. A nomeação para a Academia Militar foi recebida em fins de março. Os exames do admissão eram processados em West Point no fim de junho e, em maio, Poe despediu-se de seu tutor e seguiu para a Academia Militar, visitando de passagem seus parentes em Baltimore.

A primeiro de julho de 1839 prestou o juramento e foi admitido como cadete em West Point. Poe permaneceu na Academia Militar dos Estados Unidos de 25 de junho de 1830 a 19 de fevereiro de 1831. Não pode haver dúvida de que a carreira militar não lhe agradava e que fora forçado a entrar nela pelo seu tutor, de cuja fortuna podia ainda esperar partilhar.

O Sr. Allan, porem, achava já ter cumprido seu dever, estando Edgar colocado em cargo público, e sentia-se satisfeito por tê-lo afastado de Richmond. No dia em que Poe entrou para West Point, seu tutor foi presenteado com um par de gêmeos naturais, a quem mais tarde contemplou no seu testamento. Isto não o impediu, contudo, de casar-se pela segunda vez e a nova ligação tornou-o mais do que nunca inimizado com seu filho de criação.

Edgar Poe continuou a cumprir honrosamente seus deveres na Academia Militar, quando toda a esperança de qualquer auxílio no futuro da parte do Sr. Allan foi destruida por uma carta de Richmond, que o repudiava. O soldado havia apresentado a seu tutor a carta escrita por Poe, um ano antes, e extrema foi a cólera do Sr. Allan. Certificado de que toda esperança de ajuda financeira, vinda de Richmond, desaparecera agora, Poe resolveu tomar decisões próprias e deixar o Exército para sempre.

Como não pudesse obter do Sr. Allan o consentimento para dar baixa, 27 fez greve e deixou de comparecer às formaturas, às aulas e à igreja. Foi submetido a corte marcial e destituído por desobediente. Enquanto se achava na Academia Militar, arranjara com Elam Bliss, editor nova-iorquino, a publicação dum terceiro volume de poemas, subscrita pelo corpo de estudantes da Academia. Em fevereiro de 1831, seguiu para Nova York.

Estava sem dinheiro, mal vestido, e quase morreu dum "resfriado", complicado com uma doença do ouvido interno, depois de ter chegado à cidade. Forçado a pedir desculpas, apelou de novo para seu tutor, mas em vão. Permaneceu em Nova York o bastante para ver seu terceiro volume fora do prelo. Intitulava-se Poemas, Segunda Edição, e continha um prefácio dirigido ao "Querido B", personagem desconhecido, no qual algumas das opiniões críticas do jovem autor, largamente procedentes de Coleridge, eram pela primeira vez ex- postas. Depois de tentar baldadamente obter do Coronel Thayer, comandante de West Point, cartas de apresentação para Lafayette, a fim de juntar-se aos patriotas poloneses, que se tinham então revoltado contra a Rússia, Poe deixou Nova York e viajou de Filadélfia a Baltimore.

Chegou a esta última cidade em dias do fim de março de 1831 e novamente passou a residir em Mechanics Row, Rua do Leite, com sua tia Maria Clemm, e a filha desta, Virgínia. Seu irmão Henry achava-se então de pessima saúde, "tendo-se entregue à bebida ", e moribundo. Poe passou os quatro anos seguintes, em em condições de extrema pobreza. Era ainda obscuro e suas açoes, na maior parte das vezes, são muito vagas. Alguns fatos porem, podem ser com certeza relanceados.

Durante a maior parte do período de Baltimore, deve ter Poe levado uma vida reclusa. Começou então a voltar sua atenção para a prosa e conseguiu colocar alguns contos numa publicação de Filadélfia. Seu irmão Henrv morreu em agosto de 1831. Edgar continuava a morar com os Clemms. A família vivia atenazada pela pobreza e ele próprio, na maior parte do tempo, não gozava de boa saúde.

De que vivia a família não se sabe bem. Foram feitas tentativas para interessar mais uma vez o Sr. Allan em favor dele, mas sem resultado. Nenhum auxílio veio de Richmond, exceto em certa ocasião em que, por causa duma dívida contraída por seu irmão Henrv, esteve Edgar em perigo de ser preso.

O Sr. Allan enviou uma tardia resposta, que foi a última que Poe veio a receber dele. Sabe-se que Poe dedicou ardente interesse a Maria Devereaux, moça que morava perto da sua casa. Foi recusado e chicoteou o tio da moça. Por esta ocasião, frequentava ele também as casas de seus parentes, os Poe e os Herring, especialmente estes últimos. Foi então, também, que se pôs a trabalhar com ardor, aperfeiçoando sua arte de contista e compondo o seu único drama, "Policiano".

Em outubro de 1833, concorreu a um prêmio de cinqúenta dólares, oferecido ao melhor conto apresentado a um jornal de Baltimore, The Salurday Visitor. O prêmio foi concedido, por uma comissão de cidadãos bem conhecidos, ao "Manuscrito Encontrado Numa Garrafa", de Poe. Foi seu primeiro êxito assinalável e marca sua entrada no caminho da fama.

O dinheiro veio-lhe em socorro as necessidades, mas o efeito mais importante do concurso foi o auxílio dado ao jovem poeta, agravado de pobreza, por John P. Kennedy, cavalheiro de Baltimore, bastante rico, de coração bondoso e, ele próprio, escritor de teatro.

O Sr. Kennedy, por meio de vários e oportunos atos de caridade e de prestígio, fez Poe enveredar pela estrada do renome. Kennedy possibilitou a publicação de alguns dos contos de Poe e apresentou-o a Thomas White, editor do Southern Literary Messenger, que se publicava em Richmond (Virgínia).

Poe começou então a colaborar, com críticas e contos, naquele periódico e finalmente foi convidado, em 1835, a ir para Richmond, como redator- auxiliar. Entrementes, o Sr. Allan havia morrido, em 1834, e no seu testamento não havia menção de Poe. Duas mal-avisadas viagens de Poe a Richmond, entre 1832 e 1834 tinham tido apenas como resultado afastar ainda mais de si seu antigo tutor e a família Allan. Mantiveram-se de mal até o fim.

Em julho de 1835, Poe deixou Baltimore para assumir suas novas funções de redator, em Richmond. Como jornalista, considerado simplesmente do ponto de vista do escritório e da cadeira, Poe constituiu um autêntico êxito. As assinaturas do Southern Literary Messenger se multiplicaram.

O Sr. White não podia deixar de ficar bem satisfeito. Era homem bondoso e de boas disposições. Bastante significativo da inabilidade de Poe em abandonar os estimulantes é o fato de que, poucas semanas depois de sua chegada a Richmond, achou-se desempregado. Voltou a Baltimore e ali se casou secretamente, a 22 de setembro de 1835, com sua prima primeira Virgínia Clemm. Tinha esta, naquela ocasião, mais ou menos apenas treze anos de idade e o casamento secreto originou-se da oposição dos parentes a uma união tão prematura.

Poe apelou então, de novo, para o Sr. White, com promessas de abster-se da bebida e reassumiu seu antigo posto, sob condição de boa conduta e com uma paternal advertência. A Sra. Clemm e sua filha Virgínia acompanharam Poe a Richmond e ficaram morando com ele numa pensão, na Praça do Capitólio. Poe permaneceu em Richmond, como redator-auxiliar do Sr. White, no Southern Líterary Messenger, do outono de 1835 até janeiro de 1837. Durante sua estada no jornal, a circulação deste aumentou de 700 para 3 500 exemplares, atraiu a atenção nacional e pode-se dizer que foi inicialmente devido a Poe que se tornou o periódico mais influente do Sul. Sua reputação foi depois mantida e aumentada por outros homens de considerável habilidade jornalística.

A tarefa do jovem redator escalonava-se do mero trabalho mercenário de natureza francamente jornalística até a colaboração literária. Escrevia poemas, resenhas de livros, crítica literária geral e particular e histórias curtas, quer seriadas, quer completas. As notas sobre livros variavam desde o comentário sobre as memórias, 29 de Coleridge, até as referências a livros tais como as Cartas da Senhora Sigourney às Moças; em resumo, desde as críticas bem raciocinadas e muitas vezes severas até às simples notícias com leve comentário critico.

Alguns dos poemas que tinham anteriormente aparecido nos volumes de poesia a que já aludimos foram republicados, consideravelmente revistos. Poe continuou seguindo essa política de maior ou menor revisão constante e de republicação im- pressa durante toda a sua carreira. Entre os mais notáveis dos novos poemas que apareceram nessa ocasião contam-se "Para Helena", "Irene", ou "A Adormecida", "Israfel" e "Zante".
O tom geral da crítica literária nos Estados Unidos, ao tempo em que Poe começou a escrever para o Southern Literary Messenger, era um tanto superficial, servil ou nebuloso. O comentário do rapaz de Richmond era interessante, perturbador e renovador. Sua freqúente severidade provocava réplicas e observações e, embora suscitasse antagonismo em alguns setores, sua presença em cena e a mordacidade de seu estilo tornaram-se cada vez mais evidentes.

Muitas das estórias que Poe tinha preparado para os Contos do Fólio Clube. Em Baltimore , antes de receber o prêmio do Saturday Visitor, publicou-as então no Messenger. Estórias tais como "Metzengestein" - atraíram considerável atenção, como bem mereciam, e aumentaram não pouco a sua fama. Em algumas delas assinalada era já então observada e censurada. Tais comentários de censura, porém, não impediam que sua fascinação rara deixasse de ser sentida. Sob o título de "Pinakídia", o jovem jornalista publicou também, nessa ocasião, uma coleção do curiosas anotações, abrangendo vasto campo de interesse, tiradas de seu livro de notas.

Muitas delas utilizou-as de novo, mais tarde, na Re- vista Democrática, com o título de "Marginalia". Por este tempo, Poe foi descrito como sendo "gracioso, de cabelos negros e ondulados, e magníficos olhos, usando colarinho à Byron e parecendo poeta da cabeça aos pés". O mais antigo retrato dele que se conhece data de seus primeiros dias no Messenger e o mostra com suíças e uma expressão um tanto sardônica para homem tão jovem. Mesmo naquela data ele era evidentemente um tanto frágil e delicado. Sua tez, que mais tarde se tornou completamente lívida, é descrita como tendo sido amorenada.

De seus negócios particulares, o mais importante acontecimento da época de Ríchmond foi seu segundo casamento com sua prima Virginia. As razões do mesmo parecem ser suficientemente claras. Fora clandestino o primeiro casamento em Baltimore, tendo como única testemunha a Sra. Clemm.

Parentes influentes tinham-se oposto a ele e jamais fora tornado público. Todas as explicações foram evitadas por um segundo casamento em público, nada tendo sido dito a respeito do primeiro, e a 16 de maio de 1836 um contrato de casamento foi assinado no Juizado de Paz da cidade de Richmond, que dá Virgínia CIemm como tendo vinte e um anos. Na realidade, tinha ela menos de catorze anos de idade naquele tempo e a aparência de uma criança.

O casamento realizou-se em uma pensão de propriedade de uma tal Sra. Yarrington, em companhia de amigos, tendo oficiado um teólogo presbiteriano chamado Amasa Converse. Depois de simples cerimônia o casal partiu para sua lua-de-mel, que se passou em Petersburgo, na Virginia, em casa de certo Sr. Hiram Haines, diretor do jornal local. Poe estava de volta para Richmond e seu trabalho no Messenger em fins de maio de 1836.

O Sr. White prometera-lhe um aumento de salário para mais tarde. Depois de seu casamento, na verdade algum tempo antes, a correspondência do poeta com parentes e amigos mostra que ele desejava montar casa. O plano seguido era solicitar dinheiro para que a Sra. Clemm e Virgínia pudessem estabelecer uma pensão. Embora alguns pequenos auxílios, "empréstimos", fossem obtidos, o plano fracassou e a pequena família mudou-se para uma casa barata na Rua Sete, onde parece que ficou até o fim de sua estada em Richmond.

Poe continuou seu trabalho redatorial e, como resultado de sua observação, experiência e ambição, começou a desenvolver-se em sua mente um plano cujos começos podem ser rastreados desde Baltimore. Esperava montar e ser o editor de um grande magazine literário nacional. De que Poe foi um dos primeiros homens na América a compreender as possibilidades do jornalismo moderno, no que se refere a um magazine, não resta a menor dúvida.

Desde então, e até o fim de sua história, foi esse o plano acarinhado de sua vida. O infortúnio e a sua própria personalidade, mais do que as teorias que a respeito do jornalismo entretinha, foram os responsáveis pelo seu fracasso na realização de tal ambição. Começou então a pensar em seguir para o Norte, a fim de montar a nova publicação, mudança que a fama crescente e os atritos sempre numerosos com seu redator-chefe serviram para apressar.

Poe era brilhante, mas inadaptado ao trabalho em posição subalterna. Deve-se, com toda justiça, dizer que o Sr. White foi paciente. Foi porém dominado, em várias ocasiões, pelo seu versátil e jovem redator e há também indicações de que, no outono de 1836, havia Poe mais uma vez decaído de suas boas graças e, a despeito de suas promessas bem intencionadas a White, estava-se entregando de novo, de vez em quando, à bebida.

Em adendo a isto, parece ter-se ele mostrado incontentável. Tirando vantagem de relações que fizera por correspondência com homens de Nova York, tais como o Prof. Charles Anthon, John K. Paulding, os irmãos Harper e outros, decidiu mudar-se para aquela cidade.

Em conseqüência, em janeiro de 1837, liquidou seus negócios com o Southern Literary Messenger e com o Sr. White e, levando a família consigo, partiu para Nova York. Parece que ali chegaram mais ou menos em fins de fevereiro de 1837 e se alojaram na esquina da Sexta Avenida com a Praça Waverly, partilhando um andar com um tal William Gowans, livreiro, que prestou consideráveis serviços a Poe. Antes de deixar Richmond, no verão de 1836, fizera Poe várias tentativas de reunir as estórias contidas nos Contos do Fólio Clube e publicá-las em volume.

Os manuscritos tinham sido anteriormente deixados em Filadélfia com Carey & Lea, que os conservaram durante algum tempo para examiná-los, mas finalmente os haviam devolvido ao autor, menos uma estória, em fevereiro de 1836. Poe enviou- os para .J. K. Paulding, em Nova York, que os sub-meteu à apreciação dos Harpers. O resultado foi outra recusa. Paulding escrevera a Poe, contudo, quando devolveu os contos, sugerindo uma longa narrativa em dois volumes, em formato bem popular. Em consequencia desta sugestão surgiu uma comprida estória de aventuras, naufrágio e horríveis sofrimentos no então desconhecido hemisfério meridional. Chamou-se "A Narrativa de Artur Gordon Pym" e foi finalmente aceita pelos Harpers, que a publicaram em 1838, nos Estados Unidos. Wiley & Putnam fizeram uma edição na Inglaterra, onde mais tarde a plagiaram. Foi o primeiro livro de prosa de Poe, embora seu quarto livro publicado, havendo precedido três volumes de poesia. A estória apareceu em séries no Southern Literary Messenger mesmo depois de ter Poe cortado suas relações redatoriais.

Era dada como escrita pelo próprio Artur Gordon Pym e o verdadeiro autor apenas vinha mencionado no prefácio. O tipo de estória de aventuras que a "Narrativa de Artur Gordon Pym" seguiu de perto era popular naquele tempo. Poe deixou simplesmente que sua imaginação se entretivesse com materiais conhecidos, encontrados em livros tais como O Motim do Bounty, a Narrativa de Quatro Viagens ao Pacífico, de Morell, e quejandos. Seu entusiasmo do momento pelo Antártico parece ter surgido dos preparativos então feitos por um tal J. N. Reynolds para uma expedição do Governo àquelas partes. Nathaniel Hawthorne estava também interessado no mesmo plano, que, porém, deu em nada.

O êxito do livro foi pequeno e trouxe ao autor muito pouca fama e menos dinheiro ainda. Pouco tempo depois de sua chegada a Nova York, Poe, Virgínia e a Sra. Clemm mudaram-se para uma pequena casa, na Rua Carmine, n.0 13½, onde a Sra. Clemm aceitou pensionistas para poder-se manter. Poe estava ganhando quase nada. Era um período de pânico financeiro, sendo quase impossível obter-se trabalho literario.
Os Poe foram acompanhados à sua nova residência pelo livreiro Gowans, que parece ter apresentado o poeta a numerosos literatos, mas com pouco resultado. A pobreza da família era agora extrema. A despeito disso, contudo, Poe continuou a escrever. As principais notícias que se podem ter desta primeira, mas um tanto breve, estada em Nova York referem-se a uma resenha de "Arabia Petraea", na Revista de Nova York, "Silêncio (Fábula)", publicado no Baltimore Book, e um conto chamado "Von Jung, o Místico" (Mistificação) que apareceu no American Monthly Magazine, de junho de 1837.

Os planos de iniciar um magazine de sua propriedade não devem ter encontrado aceitação naquele tempo, devido à depressão financeira. Poe, na verdade, não era capaz de obter até mesmo um lugar de redator secundário, ou o suficiente trabalho mercenário que lhe garantisse a subsistência. Seus atos desse tempo hão de permanecer para sempre um tanto obscuros. Provavelmente por in- termédio de Gowans, foi posto em contato com James Pedder, inglês de capacidade literária quase nula, mas homem bondoso. Pedder, por esse tempo, ocupava-se em obter, para si mesmo, ligações com magazines de Filadélfia, onde suas irmãs residiam.

Por intermédio dele parece bastante provável que Poe foi induzido a deixar Nova York e mudar-se para Filadélfia, então o grande centro editorial dos Estados Unidos. Seja como for, nós o encontramos em Filadélfia pelos fins de agosto de 1838, pensionista, juntamente com sua família e James Pedder, de uma casa de cômodos mantida pelas irmãs do inglês na Rua Doze, um pouco acima de Mulberrv (Arch).
Poe achou-se logo definitivamente encarregado de dois projetos literários, a edição de um compêndio de Concologia e a de há muito adiada publicação de seus contos escolhidos. Logo depois de sua chegada a Filadélfia, Poe mudou-se para mais perto das livrarias e tipografias da cidade baixa, para uma casa de número 4 da Rua Arch (então Mulberry), onde continuou até 4 de setembro de 1838. Estava agora encarregado de editar o "Primeiro Livro do Concologista, ou Sistema de Malaco- logia dos Testáceos", compêndio ao qual ele emprestou seu nome. Foi um mero trabalho mercenário, e nada tem que ver com os originais e artísticos de Poe.

O livro é bastante procurado pelos colecionadores. São conhecidas pelo menos umas nove edições dele, tendo sido a primeira publicada em abril de 1837, por Barrington e Haswell. Poe escreveu o prefácio e a introdução e foi auxiliado no arranjo do texto e das ilustrações por um tal Sr. Isaac Lee e pelo Prof. Thomas Wyatt, De Blainville e Parkinson são citados, e Cuvier profusamente aproveitado. As belas gravuras de conchas foram furtadas do Compendio dos Concologistas, trabalho dum ingles Thomas Brown, a quem nao foram dadas satisfações.

Posteriormente foi Poe atacado por causa disso e acusado de plágio. A verdade é que o costume de furtar material para livros escolares era então quase universal e muito pouco censura se pode fazer realmente a Poe. Recebeu 50 dólares pela utilização de seu nome como redator . Na série dos volumes publicados por Poe é este o quinto. Esse compêndio escolar era apenas uma transação financeira.

Poe voltou a atenção para a publicação de seus contos. Arranjou-se publicar suas estórias escolhidas sob o título de Contos do Grotesco e Arabesco em dois delgados volumes.

Foram publicados em dezemmbro de 1839 por Lea & Blanchard, de Filadélfia. A página do título traz a data de 1840. O autor não recebeu direitos autorais pelo seu trabalho, mas apenas uns poucos exemplares para distribuir com seus amigos. O editor assumiu o risco, não muito agradável, pois os volumes se venderam muito devagar. Havia catorze estórias no primeiro volume e dez no segundo, compreendendo o total todos os contos publicados até aquela ocasião pelo autor e "Por que o francesinho Está com a Mão na Tipoia ", so aparecido mais tarde. Foi esta a sexta aventura de Poe com um volume impresso, nenhum dos quais fora de modo algum um êxito do ponto de vista financeiro.


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