quinta-feira, 7 de março de 2013

O Sistema do Dr. Abreu e do Professor Pena



(1) Publicado pela primeira vez no Graham's Lady's and Gentleman’s Magazine,
novembro de 1845. Título original: THE System  of Dr. Tarr and Prof. Fether.
O título original deste famoso conto de Poe é The System nomes evidentemente
burlescos e intraduzíveis, pois tar significa  em inglês "alcatrao", "breu",
"betume", e fether é vocábulo puramente  fantástico. O "Sistema" do "Dr. Tarr &
Prof. Fether", que serve de base a  este conto, é uma conhecida forma de punição
, existente outrora nos Estados  Unidos, e que consistia em besuntar a breu e
cobrir de penas os condenados,  fato que se designava pela expressão to tar and
feather somebody. (N.T.)


DURANTE o outono de 18..., enquanto dava um giro pelas províncias do extremo
sul da França, levou-me a estrada que eu seguia a poucas milhas de certa casa de
saúde ou hospício particular,  acerca do qual muito me haviam falado em Paris
alguns médicos  meus amigos. Como nunca houvesse visitado um lugar desse
natureza, julguei excelente a oportunidade para poder perdê-la; e, assim, propus a
meu companheiro de viagem (um cavalheiro que conhecera  casualmente poucos
dias antes) que nos desviássemos, uma hora ou mais para percorrer o
estabelecimento. Recusou-se ele a isto, alegando pressa, em primeiro lugar, e, em
segundo, o horror que habitualmente  provoca a vista de um alienado. Rogou-me,
porém que não , sacrificasse a uma simples cortesia para com ele a minha
satisfação de curiosidade e disse que continuaria a viagem, vagarosamente de
modo que eu pudesse alcançá-lo durante o dia, ou em qualquer caso, no dia
seguinte.



Ao despedir- se de mim ocorreu-me que poderia haver alguma dificuldade em
obter entrada no edifício e mencionei meus receios a esse respeito. Ele
respondeu que, de fato, a menos que eu tivesse conhecimento  pessoal com o
diretor, Sr. Maillard, ou alguma credencial em forma de carta, alguma dificuldade
poderia haver, uma vez que regulamentos desses hospícios particulares eram
mais severos do que as normas dos hospícios públicos. Quanto a ele, ficara
conhecendo, havia alguns anos, o Sr. Maillard e, portanto, ,me acompanharia até à
porta, para apresentar-me, embora seus sentimentos, relativamente à loucura, não
lhe permitissem entrar na casa .

Agradeci-lhe e, desviando-nos da estrada principal, entramos por um atalho
relvoso que, dentro de meia hora, quase se perdia numa densa floresta  que
cobria a base de uma montanha. Por entre esse bosque  únido e sombrio,
cavalgamos umas duas milhas, até que a casa de saúde foi avistada. Era um
fantástico castelo, bastante deteriorado e realmente pouco habitável, pela sua
aparência de velhice e desleixo. Seu aspecto encheu-me de verdadeiro terror e,
detendo o meu cavalo,   já estava meio resolvido a voltar. Logo, porém,
envergonhei-me de minha fraqueza e continuei.

Ao nos dirigirmos para o portão de entrada notei que ele estava semi-aberto e que
um homem espreitava pela abertura. Logo depois esse homem adiantou-se,
abordou meu companheiro, chamando-o nome, apertou-lhe cordialmente a mão e
convidou-o a apear-se.  Era o próprio Sr. Maillard. Era ele um cavalheiro do velho
estilo, de  imponente e bela aparência, de maneiras polidas e certo ar de
gravidade,  dignidade, e autoridade que impressionava bastante. Depois de
apresentar-me, meu amigo mencionou meu desejo de visitar o  estabelecimento e
recebeu do Sr. Maillard a segurança de que me prestaria todas as atenções;
depois despediu-se e não mais o vi.

Depois que ele se foi, o diretor conduziu-me a uma saleta pequena e muito  bem
cuidada, contendo, entre outros indícios de refinado gosto, muitos  livros,
quadros, vasos de flores e instrumentos musicais. Vivo fogo ardia na lareira. Ao
piano, cantando uma ária de Bellini, estava sentada uma mulher jovem e
belíssima, que, à minha entrada, parou sua canção e acolheu-me com graciosa
cortesia . Sua voz era grave e todas as suas maneiras reservadas. Julguei,
também , notar sinais de tristeza em seu semblante, que era excessivamente pálido,
embora não fosse isso desagradável para  meu gosto.

Trajava de luto fechado e provocou , em meu coração um sentimento misto de
respeito, admiração e interesse.

Eu ouvira falar, em Paris, que o instituto do Sr. Maillard, conduzido de acordo com
o que vulgarmente se chama sistema da  brandura; que todas as punições eram
proscritas, que mesmo a reclusão só era empregada raramente, que os pacientes,
embora secretamente vigiados, eram deixados, em aparente liberdade e que a
muitos deles se permitia andar pela casa e pelos jardins vestidos com os trajes
comuns das pessoas de juízo perfeito.

Tendo em vista tais impressões, tornei-me cuidado sobre o que pudesse dizer
diante da jovem senhora, pois nada me  assegurava que ela estivesse no gozo da
razão; e, de fato, certo brilho inquieto que havia em seus olhos levou-me quase a
imaginar que não estava.  Limitei, pois, minhas observações a temas gerais e
àqueles que pensei não desagradarem nem excitarem um alienado. Ela
respondeu de modo perfeitamente racional, a tudo quanto eu disse e mesmo suas
suas observações pessoais eram assinaladas pelo mais profundo bom-senso;
mas um longo conhecimento da metafísica da demência me ensinara a não
depositar fé em tais demonstrações de sanidade mental, e continuei a usar,
durante toda a palestra, da preocupação com  que a iniciara.

Em seguida, um elegante criado de libré trouxe uma bandeja com frutas, vinho e
outros refrescos, de que me servi; a senhora  logo depois, deixou o aposento.
Depois que partiu, voltei os olhos  de modo interrogativo, para o dono da casa.
Não - disse ele. - Oh, não! É uma pessoa de família ... Minha sobrinha, uma
senhora muito prendada.

- Peço mil perdões pela suspeita - repliquei -, mas naturalmente o senhor sabe
como desculpar-me. A excelente administração de seu estabelecimento é muito
bem compreendida e, Paris e eu pensei que seria bem possível, o senhor sabe.
- Sim, sim. . . Não diga mais. . . Ou antes, eu é que lhe deveria agradecer pela
recomendável prudência de que o senhor usou.  Raramente achamos tamanha
previsão entre os jovens, e mais de uma vez vários contratempos lastimáveis
ocorreram em consequência de imprevidência da parte de nossos visitantes.
Quando meu primitivo sistema estava sendo empregado e era dado aos meus
pacientes o privilégio de andarem para um lado e para outro, à vontade muitas
vezes eram eles levados a perigosas crises, por pessoas que irrefletidas que eram
convidadas a visitar a casa. Fui então impor um rígido sistema de seleção e só
obtêm acesso ao edifício aqueles com cuja discrição posso contar.

- Quando seu primitivo sistema estava sendo empregado! -  disse eu, repetindo-lhe
as palavras. - Quer dizer, então que o "sistema da brandura", de que tanto ouvi
falar, não é mais usado?
- Faz já - replicou ele - diversas semanas que decidimos renunciar a ele para
sempre.
- Deveras? O senhor me deixa atônito!


Achamos que era, meu senhor - falou ele, com profundo suspiro- inteiramente
necessário voltar aos antigos processos.

O periodo do sistema  da brandura era a todos os momentos aterrador, e suas
vantagens foram avaliadas com excesso. Creio, meu senhor, que nesta casa foi
feita uma experiência leal entre as que mais o foram.  Fizemos tudo quanto a
razão humana podia sugerir. Lastimo que o Sr. não nos tenha podido fazer uma
visita antes, para , poder ter julgado por si mesmo. Mas presumo que conhece o
sistema da brandura…  e seus pormenores.

- Não completamente. O que dele ouvi foi de terceira ou quarta mão.
- Posso  definir o sistema, então, em termos gerais, como um sistema em que os
pacientes eram dirigidos pela satisfação de seus desejos. Não contrariávamos as
fantasias que entravam no cérebro do louco. Ao contrário, não só as permitíamos
como as estimulávamos e muitas de nossas curas permanentes foram efetuadas
assim. Não há argumento que tanto atinja a razão fraca do alienado do que a da
reductio ad absurdum. Tivemos, por exemplo, homens que se consideravam
pintos. A cura consistia em insistir sobre isso como um fato,  em acusar o
paciente de estupidez por não perceber, suficientemente que isso era um fato, e,
desse modo, em recusar-lhe , durante uma semana, outro regime alimentar que
não o próprio de um pinto. Desse modo, um pouco de grão e de areia chegava a
obter maravilhas.

- Mas essa espécie de aquiescência era tudo?
- De modo algum. Depositávamos muita fé nas diversões de espécies simples, tais
como música, danças, exercícios ginásticos em geral, jogos de baralho, certas
espécies de livros, etc. Fingíamos tratar cada indivíduo como se sofresse de
alguma moléstia física comum; e a palavra "loucura" nunca era empregada. Um
dos pontos importantes estava em encarregar cada alienado de vigiar as ações de
todos os demais . Depositar confiança na compreensão ou na discrição de um
louco é ganhá-lo de corpo e alma. Desse modo podíamos dispensar um corpo de
guardas, tão dispendioso.

- E não havia punições de espécie alguma?
- Nenhuma.
- E o senhor nunca encarcerou seus pacientes?
- Muito raramente. De vez em quando, a doença de alguma pessoa se
transformava numa crise ou tomava um súbito aspecto de fúria; levávamo-lo,
então, para uma cela secreta a fim de que sua agitação não contagiasse os
demais, e ali o conservávamos até poder devolvê-lo a  seus amigos, pois nada
fazemos com os loucos furiosos. Habitualmente são eles removidos para os
hospícios públicos.
- E o senhor agora mudou tudo isso... Pensa que foi para melhor?

- Perfeitamente.  O sistema tinha suas desvantagens, seus perigos mesmo.
Felizmente, está ele agora proscrito de todas as casas de saúde da França.

- Fico muito surpreendido com o que o senhor me diz - falei.
- Estava certo de que, neste momento, nenhum outro método para tratamento da
loucura existisse em qualquer parte do país.
- O senhor é jovem ainda, meu amigo - replicou o dono da casa. - Mas chegará o
tempo em que aprenderá a julgar por si mesmo do que se passa no mundo, sem
confiar nas tagarelices  alheias. Não acredite em nada do que ouve e só a metade
do que vê.  Ora, acerca de nossa casa de saúde, é certo que algum ignorante  o
enganou. Depois do jantar, porém, quando o senhor estiver suficientemente
descansado da fadiga de sua viagem a cavalo, sentir-me-ei feliz por mostrar-lhe
um sistema que, na minha opinião e na  de todos que testemunharam sua
aplicação, é, incomparavelmente,  o mais eficiente de quantos já se imaginaram.
- E seu? - interroguei. - E algum de sua própria invenção?
- Tenho orgulho em reconhecer que é - replicou ele - pelo  menos, em certa parte.
Desse modo, conversei com o Sr. Maillard uma ou duas horas durante as quais
ele me mostrou os jardins e as estufas do lugar.
- Não posso deixá-lo ver neste momento os meus pacientes - falou ele. - Para um
espfrito sensível há sempre, mais ou menos,   alguma coisa de chocante em tais
exibições e não desejo privá-lo  do apetite de jantar. Vamos jantar juntos. Poderei
oferecer-lhe vitela à Ia Saint Menehoult, couves-flores en veloutée sauce. Depois
de  um copo de Clos de Vougeôt, seus nervos, então, estarão suficientemente
firmes.
Às seis horas foi anunciado o jantar, e meu anfitrião conduziu-me a uma grande
salle à manger, onde se reunia uma companhia bastante numerosa: vinte e cinco
ou trinta ao todo. Eram aparentemente, gente fina, certamente de elevada
educação, embora suas vestes fossem extravagantemente ricas, participando
algo demais do apuro ostentoso da vieille cour.(2) Verifiquei que, pelo menos
dois terços dos convivas eram mulheres e várias delas, de modo algum  se
trajavam de acordo com o que um parisiense consideraria bom gosto nos dias
que correm. Várias senhoras, por exemplo, cuja a idade não podia ser menos de
setenta anos, ornamentavam-se com uma profusão de jóias, como anéis,
braceletes, brincos, e traziam o peito e os braços vergonhosamente nus.
Observei, também que muito poucos dos vestidos eram bem feitos ou, pelo
menos, que muito  poucos condiziam com quem os usava. Olhando em torno
descobri a interessante moça a quem o Sr. Maillard me apresentara na saleta mas
grande foi minha surpresa ao vê-la usando um vestido de anquinhas, com
sapatos de salto alto e uma touca suja de ponto de Bruxelas, demasiado grande
para ela e que lhe dava à face uma expressão ridícula de diminuição. Quando
primeiro a vira  ela trajava, deve ser lembrado, luto fechado.
Havia um ar de extravagância, em suma, em todas as roupas de todos os
convivas, que me trazia ao pensamento ao pensamento a ideia primitiva

(2) Velha corte, referindo-se ao Império ou à Restauração. Pode também traduzir-
se por "sabor velho". (N. T.)

do "sistema de brandura" e fazia-me imaginar que o Sr. Maillard pretendera iludir-
me, até depois do jantar, para que eu não experimentasse sentimentos
desagradáveis durante a refeição, ao encontrar-me jantando com doidos. Mas
lembrei-me de ter sido informado em Paris de que os provincianos do sul são um
povo particularmente excêntrico, com um vasto número de idéias antiquadas; e,
depois de conversar  com diversos membros da companhia, minhas apreensões
foram imediata e completamente dissipadas.

A própria sala de jantar, embora talvez suficientemente confortável e de boas
dimensões, nada tinha de muito elegante. Por exemplo, no soalho não havia
tapetes; na França, contudo, o tapete é dispensado freqüentemente. As janelas,
também, estavam sem cortinas, os postigos, quando fechados, eram seguros por
barras de ferro , solidamente aplicadas em diagonal, à maneira dos de nossas
lojas.

O aposento observei, , formava, sozinho, uma ala do castelo e assim as janelas
estavam em três lados do paralelogramo, ficando a porta do outro. Não havia
menos de dez janelas ao todo.

A mesa  estava soberbamente servida. Sobrecarregada de baixela de prata e  mais
do que sobrecarregada de iguarias. A profusão era inteiramente bárbara. Havia
manjares bastantes para saciar os enaquim. (3)  Nunca, em toda a minha vida,
havia eu testemunhado tão pródigo e tão ruinoso gasto das boas coisas da vida.
Parecia, porém, haver muito pouco bom-gosto nos arranjos e meus olhos,
acostumados a luzes suaves, sentiam-se doloridamente feridos pelo maravilhoso
clarão duma quantidade enorme de velas que, em candelabros de prata, estavam
colocadas sobre a mesa e por toda a sala, em qualquer parte onde fosse possível
achar um lugar. Havia numerosos criados diligentes em servir e, sobre uma larga
mesa, na extremidade do aposento, achavam-se sentadas sete ou oito pessoas
com rabecas, flautas, trombones e um tambor. Esses camaradas me aborreceram
bastante, a intervalos, durante a refeição, com uma infinita variedade de barulhos
que pretendiam ser música e que pareciam proporcionar bastante prazer a todos
os presentes, com exceção de mim mesmo.

Sobretudo, não podia eu deixar de pensar que havia muito de esquisito em tudo
quanto via... Mas, afinal, o mundo é composto de toda a casta de pessoas com
todos os modos de pensar e toda a espécie de costumes convencionais. Havia
viajado também bastante para ser adepto completo do nil  admirari; de modo que
tomei acento, com toda a calma, à direita do diretor e, estando com excelente
apetite , fiz justiça aos bons petiscos postos à minha frente.
Entretempo,  a conversação se animara e generalizara. As senhoras como  de
costume, falavam torrencialmente. Logo verifiquei que quase todos os  presentes
eram bem-educados e o diretor  era ele só um mundo de anedotas divertidas.
Mostrava-se completamente satisfeito em falar de sua posição como diretor de
uma "casa

(3) Tribo de gigantes que, segundo fala o Antigo Testamento, habitavam as
montanhas de Canaã : Josué: XI, 21 (N. T.)

de saúde" e, de fato, com grande surpresa minha, o tema de loucura  era o
preferido por todos os  presentes. Estórias engraçadíssimas  eram contadas, com
referencias as manias dos pacientes.

- Tínhamos outrora aqui um camarada - disse-me um homenzinho gordo que
estava sentado à minha direita -, um camarada  que se julgava bule de chá. E, a
propósito, não é caracteristicamente  singular que essa mania típica seja tão
freqüente na cabeça dos loucos? Poucos são os hospícios de alienados da
França que não  possam apresentar um bule humano. O nosso camarada era um
bule de porcelana inglesa e mostrava-se cuidadoso em polir todas  as manhãs
com pele de gamo e cré.

- E depois - disse um homem alto, justamente em frente a  nós - tivemos aqui, não
faz muito, uma pessoa que metera na cabeça a idéia de que era um jumento, e
que, alegoricamente falando, o senhor dirá ser perfeitamente exato. Era um
doente incômodo e tínhamos uma trabalheira para impedir que se se excedesse.
Durante muito tempo não queria comer outra coisa que não fosse cardo. Mas logo
o curamos desta ideia insistindo para que ele só comesse isso mesmo. Depois
ocupava-se continuamente a escoicear… assim. . . assim…

- Oh! Sr. De Kock! Ficar-lhe-ia muito grata se o senhor se contivesse! -
interrompeu-o aqui uma velha sentada ao lado dele.
- Guarde, por obséquio, seus pés para si mesmo! O senhor estragou meu vestido
de brocado! Será necessário, pergunto, ilustrar  uma observação num estilo tão
realista? Nosso amigo aqui presente pode decerto compreendê-lo sem
necessidade disso. Palavra de honra, o senhor é quase tão grande jumento como
se imaginava aquele pobre coitado. Tão certo como vivo, sua maneira de agir é
bastante natural.

- Mille pardons, Ma'm'selle! - respondeu o Sr. De Kock,  assim interpelado. - Mil
perdões! Não tinha a intenção de ofender.  Ma'm'selle Laplace, o Sr. De Kock
concederá a si mesmo de beber vinho em sua companhia.
Aqui o Sr. De Kock curvou-se bem baixo, beijou sua própria   mão, com bastante
cerimônia, e tomou vinho com  Ma'm'selle Laplace.
- Permita-me, mon ami - disse agora o Sr. Maillai dirigindo-se a mim -, permita-me
enviar-lhe um  pedaço desta vitela à la Saint Menehoult. O senhor vai achá-la
particularmente delicada.

Neste momento, três robustos criados tinham acabado de conseguir depositar a
salvo, sobre a mesa, um pratarraz, ou travessa  contendo o que eu supunha ser o
monstrum horrendum, informe ingens, cui lumen ademptum.(4) Um exame mais
detido assegurou-me  porém, que era apenas um pequeno vitelo assado inteiro
apoiado sobre os joelhos, com uma maçã na boca, segundo a maneira inglesa de
servir uma lebre.

(4) Monstro horrendo, informe, enorme e privado da luz. (N. T.)

- Não, obrigado - respondi. - Para falar a verdade, não sou particularmente amante
da vitela à la Saint... como disse o senhor?, pois acho que  não me sabe lá muito
bem. Mudarei de prato, porém, e comerei um pouco de coelho.
Havia na mesa vários pratos laterais contendo o que parecia ser o comum coelho
francês, um morceau (5) verdadeiramente delicioso que posso recomendar.
- Pedro- gritou o diretor.   Mude o prato deste cavalheiro e siirva-lhe um  pedaço
desse coelho au-chat. (6)
- Desse o quê? - perguntei.
- Desse coelho au-chat.
- Bem, Obrigado... pensando bem, agradeço. Vou-me servir dum pouco de
presunto.

"Não se sabe o que se come - pensava eu comigo mesmo - nessas mesas de
gente da província. Não quero provar nada do tal coelho au-chat e, pelo mesmo
motivo, nem tampouco de seu chat-au- rabbit (gato ao estilo de coelho)."
- E depois- disse um sujeito de aspecto cadavérico, perto da extremidade da
mesa, retomando o fio da conversa, onde fora partido - depois, entre outras
estranhezas, tivemos um doente, em certa época que, com bastante teimosia,
sustentava que era queijo e andava com uma faca na mão solicitando aos amigos
que provassem uma pequena fatia do meio de sua perna.
Está fora de dúvida que era um grande maluco - interpôs alguém- mas não se
compara com certo indivíduo que nós todos conhecemos com exceção desse
estranho. Refiro-me ao homem que acreditava ser garrafa de champanha e que
sempre disparava com um estalo e um assobio, assim…
E aqui o orador, a meu ver, com bastante rudeza, meteu o polegar direito na
bochecha esquerda, retirou-o com força produzindo um som  semelhante ao
espocar duma rolha de garrafa, e depois com destro movimento da língua sobre
os dentes, provocou um assobio agudo que durou alguns instantes, imitando o
espumejar da champanha. Este procedimento, digo-o  com franqueza, não foi
muito do agrado do Sr. Maillard, mas este cavalheiro nada disse, e a conversa  foi
reatada por um homenzinho bastante chupado com um grande chinó.

- Havia também aqui um imbecil - disse ele - que se tomava por uma rã, com quem,
a propósito, parecia mesmo e não pouco. Gostaria que o senhor o tivesse visto,
cavalheiro - e aqui o orador se dirigiu a mim -, ter-lhe-ia feito bem ao coração ver o
jeito natural com que ele se apresentava. Cavalheiro, se aquele homem não era
uma rã, posso apenas observar que é pena que o não fosse.
Seu coachar era assim: O-o-o-o-gh... o-o-o-gh... era a nota mais bela do mundo…...
si bemol! E quando ele punha os cotovelos em cima da mesa, assim... depois de
ter tomado um copo ou dois de vinho… e escancarado a boca, assim. . . e revirado
os olhos as-

(5) Bocado, pedaço. (N. T.)
(6) Estilo gato. (N. T.)

sim... piscando-os com excessiva rapidez, assim...  oh! então cavalheiro, faço
questão de afirmar, da maneira mais categórica que o senhor teria ficado
extasiado diante do gênio do homem.
- Não ponho absolutamente em dúvida - disse eu.
- E depois - disse outra pessoa -, depois havia um tal Petit Gaillard, que julgava ser
uma pitada de rapé, e se sentia verdadeiramente aflito por não poder agarrar a si
mesmo entre o polegar  e o indicador.

- E havia também Jules Desoulières, que era um gênio bem singular, de fato, e
ficou doido com a idéia de que era uma ábobora. Andava perseguindo o
cozinheiro, para que o metesse num  pastel, coisa que o cozinheiro, indignado,
recusou-se a fazer. Pela minha parte não afirmarei que um pastel de abóbora à la
Desoulières não tivesse sido de fato um delicioso acepipe.

- O senhor me espanta! - disse eu, olhando, interrogativamente, para o Sr. Maillard.
- Ah, ah, ah! - riu este cavalheiro. Eh, eh, eh! ih, ih, ih! oh, oh, oh! Uh, uh, uh! Muito
bom, deveras! O senhor não deve ficar espantado, mon ami. Nosso amigo aí é um
brincalhão…um drôle… Não deve tomar ao pé da letra o que ele diz.
- E depois - disse outra pessoa do grupo -, depois havia Bouffon Le Grand, outra
extraordinária personagem no seu gênero. O  amor atrapalhou-lhe a cabeça e ele
se imaginava possuidor de duas. Uma, sustentava ele que era a cabeça de Cícero,
a outra  imaginava-a composta, sendo de Demóstenes do alto da fronte até a
boca, e de Lorde Brougham, da boca até o queixo. Impossível não era que
estivesse enganado, mas teria convencido o Sr de que estava certo, pois era
homem de grande eloqüência. Tinha absoluta paixão pela oratória e não se podia
coibir de exibi-la. Costumava, por exemplo, pular sobre a mesa de jantar assim… e
assim….

Aí um amigo, ao lado do orador, pôs-lhe uma mão sobre o ombro e cochichou-lhe
algumas palavras ao ouvido, cessando ele logo após de pular e deixando-se cair
sentado em sua cadeira
- Havia ainda - disse o amigo que havia cochichado - um tal Boullard, o pião.
Chamo-o pião porque, de fato, metera-se-lhe na cabeça a mania engraçada, mas
não de todo irracional de que fora transformado num pião. O senhor rebentaria de
riso se o visse rodopiando. Girava num só calcanhar uma hora inteira, desta
forma. .. assim..

Então, o amigo a quem ele havia interrompido há pouco  com um cochicho fez a
mesma coisa com ele.
- Mas então - gritou uma velha, de voz esganiçada - o seu  Boullard era um doido,
e um doido muito estúpido, pelo menos , pois quem já ouviu falar, permita que lho
pergunte, em peão humano? A coisa é absurda. A Sra. Joyeuse era uma criatura
muito mais sensata, como o senhor sabe. Tinha uma mania, mas inspirada pelo
senso comum, e dava prazer a todos que tinham a honra de conhecê-la.

Descobriu, depois de madura reflexão, que, em virtude de qualquer
acidente, tinha-se transformado em galo novo. Mas,  como tal, portava-se
normalmente. Batia asas com prodigioso resultado, assim …assim... assim. . . E
quanto a seu canto, era delicioso! Coooocoricóóó! Cooocoricóóó!
Cooocoooriiiicóóóóó!

- Madame  Joyeuse, agradecer-lhe-ei se se comportar - interrompeu aí , com
cólera, o nosso hospedeiro. - Ou a senhora se conduz como uma dama... ou pode
deixar a mesa imediatamente! Escolha!

A senhora (que muito me espantara ouvir chamar Madame Joyeuse, depois da
descrição da mesma Madame Joyeuse que ela dera) enrubesceu até às
sobrancelhas e pareceu profundamente envergonhada com a censura. Abaixou a
cabeça e não disse uma sílaba de  resposta. Mas, outra senhora, mais jovem,
retomou o tema. Era  a minha bela moça da saleta.
- Oh, Madame Joyeuse era uma doida! - exclamou ela. - Mas havia realmente muito
bom-senso, afinal de contas, nas idéias de Eugênia Salsafette. Ela era uma jovem
dama muito bela e extremamente modesta, que considerava indecentes as modas
comuns do vestuário e que sempre queria vestir-se colocando-se por fora em vez
de ficar por dentro de suas roupas. É uma coisa que, no fim de contas, se faz
muito facilmente. Basta fazer assim. . . e depois assim... assim... e depois...
- Mon Dieu! Ma'm'selle Salsafette! - gritou então uma dúzia de vozes,
imediatamente. - Que está fazendo? Pare com isso! Chega! Vemos muito
claramente como se pode fazer isso! É bastante! Pare com isso !
E diversas pessoas já saltavam das cadeiras para impedir que Ma'm'selle
Salsafette se colocasse em pé de igualdade com a Vênus de Médicis, quando a
questão foi muito eficaz e subitamente resolvida por uma série de gritos altos ou
berros vindos de certa parte principal do castelo.

Meus nervos estavam muitíssimo abalados, na verdade, por esses gritos, mas tive
realmente compaixão do resto dos convivas. Nunca vi nenhum agrupamento de
pessoas de juízo tão completamente assombradas, em toda a minha vida. Todos
empalideceram como outros tantos cadáveres e, encolhendo-se nas cadeiras,
tremiam e falavam coisas desconexas, de terror, prestando atenção a que o som
se repetisse. Ele veio de novo, mais alto e mais próximo, e repetiu-se terceira vez,
muito alto e a quarta vez com vigor evidentemente diminuído.
A esse aparente morrer do ruído, todos imediatamente recuperaram o ânimo e
tudo se tornou, como dantes, vida e anedota. Aventurei-me, então, a inquirir da
causa da perturbação.
Mera bagatela - disse o Sr. Maillard. - Estamos acostumados a essas coisas e
realmente muito pouco nos incomodamos com elas. Os loucos, de vez em
quando, se põem a berrar em conjunto; um excitando o outro, como sucede às
vezes, à noite, com um bando de cães. Ocasionalmente sucede porém que o
concerto de berros é seguido por simultâneos esforços de escapula, e então,
 naturalmente, deve-se temer algum perigo.

- E quantos doidos estão a seus cuidados?
- Atualmente, não temos mais de dez, ao todo. Principalmente mulheres,
presumo?
- Oh, não! Posso dizer-lhe que são  todos eles homens, e sujeitos corpulentos.
- Sim, senhor! Sempre ouvi dizer que a maioria dos doidos era do sexo fraco.
- Geralmente assim e', mas nem sempre. Há algum tempo havia aqui vinte e sete
pacientes e desse número nada menos de dezoito eram mulheres; mas
ultimamente as coisas mudaram como vê.
- Sim... mudaram muito, como vê - interrompeu aí o cavalheiro que quebrara quase
as canelas da Ma'm'selle Laplace.

- Sim… mudaram muito, como vê! - carrilhonou em coro, o grupo todo.
- Contenham a língua todos vocês! - disse meu hospedeiro com grande fúria.
Daí por diante, os convivas mantiveram um silêncio mortal cerca de um minuto.
Certa senhora, mesmo, obedeceu ao Sr. Maillard ao pé da letra, e pondo para fora
a língua, que ela excessivamente comprida, segurou-a com ambas as mãos até o
fim do festim .
- E aquela senhora - disse eu ao Sr. Maillard, inclinando-me , para ele e falando
num cochicho -, aquela boa senhora, que falava há pouco e que nos apresentou o
cocoricóóóó... ela, presumo, é inofensiva, inteiramente inofensiva?
- Inofensiva! - falou ele, com surpresa não fingida. - Ora…ora,  que quer o senhor
dizer?
- Só levemente doente? - respondi, tocando na cabeça. - Acho que ela não está
particularmente. . . nem seriamente enferma, hem?
- Mon Dieu! Que está o senhor imaginando? Essa senhora, minha particular e
velha amiga, Sra. Joyeuse, é completamente tão sã como eu. Tem lá suas
pequenas excentricidades, é certo, porém, o senhor sabe, todas as senhoras de
idade. . . todas as senhoras bastante idosas... são mais ou menos extravagantes.
- É  certo - disse eu. - E certo. . . mas então, esses outros senhores e senhoras.
- São meus amigos e meus guardas -  interrompeu o Sr. Maillard, levantando-se
com hauteur -, muito bons amigos meus, e meus  assistentes.
- Como! Todos eles? As mulheres e tudo?
- Certamente - disse ele. - Nada poderíam fazer sem as  mulheres: elas são as
melhores enfermeiras do mundo para alienados. Têm um jeito todo seu, o senhor
sabe; o brilhos dos seus olhos produzem efeito maravilhoso.. . algo como a
fascinação das serpentes, o senhor sabe?

É certo - falei -, é certo. . . Mas comportam-se um tanto estranhamente, hem? São
um tanto extravagantes... não é? Não pensa asssim ?
- Estranhas! extravagantes! O senhor realmente acha? Ora, não somos muito
afetados aqui no sul e fazemos o que nos agrada muito ao  nosso bel-prazer...
Gozamos a vida, e isso é tudo que o senhor  sabe.
- É certo- falei. - É certo!
- E depois, talvez, esse Clos de Vougeôt suba um tanto à cabeça, o senhor
sabe?... Um pouquinho forte... o senhor compreende, não é?
- É certo - falei -, é certo! A propósito, meu caro senhor, ouvi-o dizer que o sistema
que adotou, em lugar do famoso "método da brandura", era o da mais rigorosa
severidade.
- De modo algum. A reclusão é necessariamente estrita; mas o tratamento… o
tratamento médico, quero dizer, é mais agradável aos  pacientes do que dantes.
- E o novo sistema é de sua própria invenção?
- Não , no todo. Algumas partes dele devem ser atribuidas ao Professor Abreu, de
quem o senhor, por certo, já ouviu falar; e, além disso há  modificações no meu
plano que me sinto feliz em reconhecer pertencerem de direito ao célebre Pena, o
qual, se não me engano o senhor tem a honra de conhecer intimamente.
Sinto-me completamente envergonhado ao confessar - que nunca ouvi antes o
nome de qualquer desses cavalheiros.

- Deus do céu! - exclamou meu anfitrião, puxando a cadeira abruptamente para
trás e erguendo as mãos. - Certamente não ouvi bem! O  senhor não quer dizer,
não é? que nunca ouviu falar no erudito Dr. Abreu ou no célebre Prof. Pena?
- Sou forçado a confessar minha ignorância - respondi -, mas a verdade deve ser
mantida intata acima de todas as coisas. Não obstante, sinto-me humilhado ao
extremo por não conhecer as obras desses homens,  sem dúvida extraordinários.
Irei procurar seus estudos, para examiná-los com acurado cuidado. Sr. Maillard, o
senhor realmente - devo confessá-lo -, o senhor, realmente, fez com que eu me
envergonhasse de mim mesmo!
E essa era a verdade.

- Não diga mais nada, meu jovem amigo - disse ele bondosamente, apertando-me
a mão. - Acompanhe-me agora numa taça de Sauternes.
Bebemos. Os demais seguiram nosso exemplo sem restrição. Tagarelavam,
divertiam-se, riam, cometiam mil extravagâncias; e as rabecas  guinchavam, o
tambor matraqueava, os trombones urravam, outros outros tantos touros
brônzeos de Falaris.. . tornando-se o espetáculo cada vez pior, à medida que o
vinho dominava, para transformar-se numa espécie de pandemônio in petto.
Entrementes , o Sr. Maillard e eu, com algumas garrafas de Sauternes e Vougeôt
entre nós, continuamos nossa conversação esganiçadamente.

 Uma palavra proferida no tom comum não tinha mais  probabilidade de ser
ouvida do que a voz de um peixe saindo da catarata do Niágara.
- Meu senhor - disse eu, berrando-lhe na orelha - o senhor mencionou algo, antes
do jantar, acerca do perigo e antigo sistema da brandura. Como é isso?
- Sim - replicou ele -, por vezes havia, em verdade muito  grande perigo. Não se
pode confiar nos caprichos dos alienados. E na minha opinião, assim como na do
Dr. Abreu e do Professor Pena, nunca se deve permitir que eles andem livremente
e sem  vigilância. Um doido pode ser "abrandado", como se por algum tempo,
mas, no fim, ele é muito capaz de tornar-se turbulento. Sua malícia, aliás, é grande
e proverbial. Se ele tem um projeto em  vista, oculta seu desígnio com maravilhosa
sabedoria; e com que finge estar de juízo perfeito apresenta ao psicólogo um dos
mais singulares problemas no estudo da mente. Quando um doido parece
completamente são, na verdade, é tempo de pô-lo  em camisa-de-força.
- Mas o perigo, meu caro senhor, do qual o senhor falava na sua própria
experiência, durante sua gestão nesta casa- teve  o senhor motivos práticos para
pensar que a liberdade é inconveniente no caso de um louco?
- Aqui? Por minha própria experiência? Ora posso dizer que sim. Por exemplo:
não faz muito tempo, uma singular ocorrência  deu-se nesta própria casa. O
sistema de brandura, como o senhor  sabe, estava então sendo empregado e os
pacientes andavam em liberdade. Comportavam-se notavelmente bem.. .
maravilhosamente bem.. . e qualquer homem de juízo poderia ter sabido que
algum projeto diabólico estivesse sendo tramado, só por aquele fato particular de
que os sujeitos se comportassem tão notavelmente bem . E, bem certo, um belo
dia os guardas acharam-se amarrados de  pés e mãos e jogados nas celas, onde
eram tratados, como se eles  é que fossem os doidos, pelos próprios doidos, que
haviam usurpado as funções dos guardas.
- Não me diga isto! Jamais ouvi coisa tão absurda na minha vida!
- É  fato. Tudo veio a realizar-se por intermédio dum camarada estúpido.. . um
doido, que, duma maneira ou de outra, metera na cabeça a idéia de haver
inventado um sistema de governo melhor que qualquer outro de que já se ouvira
falar antes, quero  dizer, de governo de doidos. Desejava pôr à prova, suponho
eu,  sua invenção, de modo que persuadiu o resto dos pacientes a se  juntar a ele
numa conspiração para derrubar os poderes reinantes.
- E conseguiu isso, realmente?
- Sem dúvida alguma. Os guardas e os guardados tiveram em  breve de trocar de
lugares, com a diferença, porém, que os doidos  ficaram livres, mas os guardas
foram lançados, imediatamente em  celas e tratados, sinto ter de dizé-lo, de
maneira bem cavalar.

- Mas, presumo que uma contra-revolução se efetuou prontamente. Esse estado
de coisas não se podia ter prolongado. Os camponeses da vizinhança, os
visitantes que vinham ver o estabelecimento  por certo o alarme.
Aqui é que o senhor se engana. O chefe dos rebeldes era demasiado  astuto para
que tal acontecesse. Não admitiu daí por diante nenhum visitante, com exceção,
um dia, de um jovem de ar bem idiota, do qual não havia motivo de receio. Deixou
que visitasse a casa, justamente para variar um pouco, para se divertir um pouco
à custa dele. Tão logo zombou o suficiente do moço, deixou-o sair para que fosse
tratar de seus negócios.
- E quanto tempo então durou o reinado dos doidos?
- Oh! i, muito tempo! Deveras, certamente um mês.. . ou muito mais do que isso;
não posso afirmar com certeza. Entrementes os doidos  como o senhor poderia
jurar, trataram de aproveitar explendidamente a oportunidade. Tiraram suas
roupas esfarrapadas e forragearam, à vontade, no guarda-roupa e nas jóias da
família.
As adgas do castelo estavam bem providas de vinho e aqueles danados doidos
são gente que sabe como bebê-lo. Posso assegurar-lhe que passaram à tripa
forra.
- E o tratamento? Qual era a espécie particular de tratamento que  o chefe dos
rebeldes pôs em execução?
- Oh!, quanto a isto, um louco não é necessariamente um maluco, como já tenho
observado; e é minha honesta opinião que o tratamento dele era muito melhor do
que o anterior. Era um sistema verdadeiramente excelente, de fato. . . simples. . .
asseado…sem complicações …delicioso deveras… Era…
Aqui as observações do meu interlocutor foram cortadas cerce por outra série de
berros da mesma espécie daqueles que antes que nos haviam desconcertado.
Desta vez, porém, pareciam provir de pessoas que  se aproximavam rapidamente.
- Deus do céu! - exclamei. - Os malucos se escaparam, sem dúvida alguma!…
- Receio bastante que assim seja - replicou o Sr. Maillard, tornando-se agora
excessivamente pálido. Mal acabara ele de falar, quando altos clamores e
imprecações se ouviram por baixo das janelas e, imediatamente depois, tornou-se
evidente que algumas pessoas lá fora estavam tentando forçar a entrada na sala.
Batiam a porta, com algo que parecia um malho e os postigos eram arrebentados
e  abalados com prodigiosa violência.
Seguiu-se um espetáculo da mais terrível confusão. Com grande espanto meu, o
Sr  Maillard lançou-se para debaixo do aparador.
Havia esperado de sua parte mais decisão. Os membros da orquestra que
durante os últimos quinze minutos pareciam demasiado bêbados para executar a
sua tarefa, ergueram-se todos imediatamente,  pegando dos instrumentos, e,
trepando em cima de sua atacaram, num só tom, o Yankee Doodle, que cantaram,
com justeza, pelo menos com uma energia sobre-humana, durante todo o tempo
do tumulto.

Entretanto, para cima da principal mesa de jantar, entre as garrafas e copos, pulou
o homem que com tanta dificuldade fora  impedido de pular para cima dela antes.
Logo que se instalou comodamente, começou um discurso que, sem dúvida, teria
achado excelente, se pudesse ter sido ouvido. No mesmo homem que tinha
predileção pelos piões se pôs a girar pela sala, com imensa energia, e com os
braços estendidos em ângulo reto com o corpo, de modo que tinha o ar completo
dum verdadeiro pião, derrubando qualquer corpo que acontecia em seu caminho.
E então, ouvindo também um inacreditável estouro e  espumejar de champanha,
descobri, afinal, que provinham da pessoa que, durante o jantar, desempenhara o
papel de garrafa de tão delicada bebida. E depois, novamente, o homem-rã
coaxava como  se a salvação de sua alma dependesse de cada nota que emitia.
E, no meio de tudo isto, o contínuo zurrar dum jumento a tudo  dominava. Quanto
à minha velha amiga, Madame Joyeui fazer chorar o seu aspecto de terrível
perplexidade. Tudo quanto  fazia era ficar a um canto, junto da lareira, e cantar se
esganiçadamente. "Coooocoooriiiicóóóó!"
Por fim sobreveio a crise suprema, a catástrofe do drama, como  nenhuma
resistência, além da algazarra, dos berros e dos cocoricós era oferecida aos
esforços dos assaltantes, as dez janelas foram de  pronto e quase
simultaneamente arrombadas. Jamais esquecerei as  sensações de espanto e de
horror, quando vi, pulando pela janela,  e caindo entre nós de roldão, lutando,
pisando, esfolando um perfeito exército do que tomei por chimpanzés,
orangotangos  ou aqueles grandes e pretos bugios do cabo da Boa Esperança.
Recebi terrível pancada depois da qual rolei para baixo do  sofá e ali fiquei quieto.
Depois de ter ficado ali uns quinze minutos, durante cujo tempo ouvi, com todos
os meus ouvidos o  que estava sucedendo na sala, cheguei por fim a um
desenlace  satisfatório dessa tragédia. Pelo que parece, o Sr. Maillard, ao narrar-
me a estória do doido que excitara seus companheiros à rebelião , estivera
apenas apenas a relatar suas próprias proezas. Esse cavalheiro tinha  sido de
fato, dois ou três anos antes, o diretor do estabelecimento,  mas veio a ficar doido
também e se tornou assim um dos pacientes. Este fato não era do conhecimento
do meu companheiro que me apresentou. Os guardas, em número de dez,  tendo
sido subitamente dominados, foram primeiro besuntados de breu e em  seguida,
cuidadosamente cobertos do penas, e por fim lançados nas celas subterrâneas.
Tinham estado assim presos mais de um  mês, durante cujo período o Sr. Maillard
lhes havia generosamente  concedido não somente breu e penas (que
constituíam seu sistema) mas também um pouco de pão e água em abundância era-
lhes dada diariamente em forma de duchas. . . Por fim, um tendo-se escapado por
um esgoto, deu liberdade aos demais.
O "sistema de brandura" - com importantes modificação  - foi restaurado no
castelo, mas não posso impedir-me concordar com  o Sr. Maillard, que seu próprio
"tratamento" era, no seu gênero, excelente. Como havia ele justamente observado,
era "simples, asseado. . . e sem complicação de espécie alguma".

Tenho apenas a  acrescentar que, embora haja procurado em todas as livrarias da
Europa as obras do Dr. Abreu e do Prof. Pena, não consegui ainda, até hoje,
apesar de meus esforços, arranjar um só exemplar.

Fim
de " O Sistema do Dr. Abreu e do Professor Pena "

2 comentários:

Simon-Poeta disse...

Muito bom! Mas, mudando de assunto, eu já mandei um e-mail para o blog dizendo que quero ser um parceiro. Já tenho o banner do Poe lá na minha página!

Scan Torrente disse...

Olá

Sei que vc já não tem tempo ou vontade de postar no seu blog.

Mesmo assim, sei que você gostaria de compartilhar seus pensamento na web.

Estou convidando você para se tornar colaborador no meu blog.

Vida longa e próspera!
http://scantorrents.blogspot.com.br/