sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Uma trapalhada


Este é um texto inédito na internet que a equipe do Blog do Poe traz para você leitor assíduo de Poe.
Que acaso, boa senhora, a desolou assim?
Comus

Era uma tarde calma e silenciosa aquela em que eu vagueava pela formosa cidade de Edina.* A confusão e o alvoroto nas ruas eram terríveis. Homens falavam. Mulheres esganiçavam-se. Crianças se engasgavam. Porcos assobiavam. Rolavam carroças. Mugiam os bois. Respondiam as vacas. cavalos rinchavam. Gatos miavam. Cachorros dançavam. Dançavam! Então era isso possível? Dançavam! Ai de mim, pensei eu, meus dias de dança já se foram! É sempre assim. Que exército de melancólicas recordações, amiúde, não se despertava no espirito do gênio, e que contemplação imaginativa, especialmente de um gênio setenciado ao imperecível, ao eterno, ao contínuo e, como se pode dizer, continuado... sim, o continuado e continuante, amargo, terrível, pertubador e, se nos é permitida a expressão, a verdadeiramente pertubadora influência do sereno, divino, celestial, exaltador, elevado e purificador efeito do que pode ser com justiça denominado a mais invejável, a mais verdadeiramente invejável, e, ainda mais!, a mais benigmamente bela, a mais deliciosamente etérea e, como o é, a mais linda (se posso usar tão ousada expressão) coisa deste mundo! Perdoai-me, gentil leitor, mas eu sou sempre arrebatada por meus sentimentos! Em tal estado de espirito, repito, que um exército de recordações é suscitado por uma ninharia! Os cães dançavam! Eu... eu não podia! cabriolavam... eu chorava! Revoluteavam... eu soluçava alto! Tocantes e comovedoras circunstâncias que não podiam deixar de trazer à memória do leitor dos clássicos aquela estranha passagem relativa à adequação das coisas que se encontra no início do terceiro volume daquela adminirável e venerável novela chinesa Jo-Gueia-Li.`

Em meu passeio solitário através da cidade, tinha dois humildes porém fiéis companheiros. Diana, meu cãozinho de colo, a mais doce das criaturas... Tinha ela bastos pelos sobre seu único olho, e em volta do pescoço enlaçava-se, de acordo com a moda, uma fita azul. Diana não tinha mais de 12 centímetros de comprimento, mas sua cabeça era algo maior do que o corpo, e sua cauda, tendo sido cortada cerce demais, dava ar de ofendida inocência ao interesse animal, tornando-o favorito de todos.


E Pompeu, meu criado negro. Querido Pompeu. Ele tinha noventa centímetros de altura (gosto de ser minunciosa) e cerca de 70, ou talvez 80, anos de idade. Tinha pernas arqueadas e era corpulento. Sua boca não poderia ser chamada pequena nem suas orelhas, curtas. Contudo, eram seus dentes como pérolas e seus olhos grandes, enormes, eram deliciosamente brancos. A natureza não o dotara de nariz e llhe colocara os tornozelos (como de costume naquela raça) no meio da parte superior dos pés. Estava vestido com uma chocante simplicidade. Seus únicos trajes eram uma gravata de 23 centímetros de comprimento e um capote castanho quase novo, que, anteriormente, estivera a serviço do alto, imponente e ilustre dr. Moneypenny. Era um bom capote. Bem talhado. E benfeito. O capote estava quase novo. Pompeu tirara-o do lixo com ambas as mãos.

Havia três pessoas em nosso grupo e duas delas já foram assunto de observações. Havia uma terceira... e essa pessoa era eu mesma. Eu sou Signora Psique Zenóbia. Eu não sou Suky Snobbs. Meu aspecto é imponente. Na memorável ocasião de que falo, trajava eu um vestido de cetim vermelho, com um xalé árabe azul-celeste. E o vestido tinha franjas com broches verdes e sete graciosos babados de aurículas cor de laranja. Formava eu, pois, a terceira pessoa do grupo. Havia o cãozinho. Havia Pompeu. Havia eu mesma. Nós eramos três. Por isso se diz que havia originalmente três Fúrias: Omelete, Meneio, Aéreo; Meditação, Memória, Pranto.

Apoiada ao braço do galante Pompeu, e seguida, a respeitável distância, por Diana, continuei a andar por uma das movimentadas e agradabilíssimas ruas da agora deserta Edina. De súbito surgiu à vista uma igreja. Uma catedral gótica. Vasta, venerável, com um alto campanário que se arrojava para o céu. Que loucura agora se apossou de mim? Por que corri eu para a minha sorte? Tomou-me um incontrolável desejo de subir o vertiginoso pináculo e dali descortinar toda a imensa extensão da cidade. A porta da catedral estava convidativamente aberta. O meu destino dominou tudo.

Penetrei pelo pórtico fatal. Onde estava então o meu anjo da guarda, se na realidade tais anjos existem? Se! Aflitivo monossílabo! Que mundo de mistério, de significação e de dúvida, de incerteza, se contém nas tuas duas letras! Penetrei no sombrio pórtico! Entrei e, sem dano algum para minhas aurículas alaranjadas, passei por baixo do portal e ingressei no vestíbulo, assim como o imenso rio Alfred passa, incólume e seco, por baixo do mar.

Pensei que a escadaria não tivesse mais fim. Circular! Sim, os degraus subiam circularmente, circulamente subiam, até que não pude deixar de conjeturar, com o sagaz Pompeu, sobre cujo braço sustentador eu me apoiava com toda a confiança de uma velha afeiçao... sim, não podia deixar de conjecturar que a extremidade da contínua escada em espiral tivesse sido, acidentalmente ou talvez propositadamente, removida. Paramos para respirar; e, entrementes, ocorreu um acidente de natureza po demais momentosa, do ponto de vista moral e também metafísico, para que o deixemos de mencionar. A mim me pareceu... na verdade eu estava completamente certa do fato... não podia me enganar, não! Eu tinha, durante alguns momentos, cuidadosa e ansiosamente observado os movimentos de minha Diana... digo, pois, que não podia ter-me enganado... Diana farejava um rato! Imediatamente, chamei a atenção de Pompeu para o caso e ele... ele concordou comigo. Não havia, pois, mais qualquer motivo razoável de dúvida. O rato tinha sido farejado... e por Diana. Céus! Poderei eu jamais esquecer a intensa excitação daquele instante? O rato... estava ali... isto é, estava em alguma parte! Diana farejou o rato! Eu... eu não podia! Por issoo se diz que a Íris da Prússia tem para algumas pessoas um doce e intensíssimo perfume, enquanto para outros é perfeitamente inodora.

A escadaria tinha sido galgada e agora havia apenas três ou quetro degraus para cima entre nós e o ápice. Subimos ainda e agora havia apenas um degrau. Um degrau, pequenino degrau! De tão pequeno degrau, na grande escadaria da vida humana, quão vasta soma de humana felicidade ou de miséria não depende! Pensei em mim mesma. Depois, em Pompeu. E, por fim, no misterioso e inexplicável destino que nos cercava. Pensei em Pompeu... ai de mim, pensei em amor! Pensei nos numerosos degraus em falso que eu tenho subido e poderei ainda subir. Resolvi ser mais cautelosa, mais prudente. Larguei o braço de Pompeu e, sem seu auxílio, galguei o único degrau restante e alcancei a câmara do campanário. Fui seguida depois pelo meu cãozinho. Somente Pompeu ficou atrás. De pé, à beira da escada, encorajei-o a subir. Ele estendeuu-se a mão e, infelizmente, ao fazê-lo, foi forçado a largar o capote que matinha firmemente enrolado no corpo. Jamais cessariam os deuses sua perseguição? O capote caiu e Pompeu pisou, com um dos pés, a longa cauda do capote. Escorregou e caiu... Esta consequência era inevitável: caiu para frente e com sau maldita cabeça, batentedo-me em cheio... no peito, precipitou-me ao chão, juntamente com ele, sobre o duro, imundo e detestável soalho do campanário. Mas minha vingança foi certa, súbita e completa. Agarrando-o com ambas as mãos pela carapinha, arranquei vasta quantidade de material negro, crespo, enroscado, largando-o, porém, com todo o manifesto desdém. Os cabelos arrancados caíram entre as cordas do campanário e ali ficaram. Pompeu levantou-se e não disse uma palavra. Mas me olhava lastimavelmente com seus grandes olhos e... suspirou. Oh, deuses... que suspiro! Mergulhou até o fundo com meu coração! E o cabelo... a carapinha! Pudesse eu reaver aquela carapinha e tê-la-ia banhado com minhas lágrimas, como prova de pesar. Mas, ai!, estava ela agora fora do meu alcance. Ao vê-la flutuar entre o cordame do sino, imaginei-a viva. Imaginei-a erguendo-se indignada, assim como a espirrenta Flos Aeris de Java, que, como é sabido, ostenta uma bela flor que viverá mesmo quando arrancada pelas raízes. Os nativos suspendem-na do teto por uma corda e gozam de seu perfume durante anos.
Nossa questão terminara, porém, e olhávamos ao redor do recinto à busca de uma abertura por onde pudéssemos contemplar toda a cidade de Edina. Não havia janela alguma. A única luz que penetrava na sombria câmara provinha de uma abertura quadrada de cerca de trinta centímetros de tamanho, a uma altura de 2,10 metro do soalho. Contudo, que é a energia do verdadeiro gênio não realiza? Resolvi trepar até aquele barraco. Grande quantidade de rodas, engrenagens e outros maquinismos, de aspecto cabalístico, erguia-se diante do buraco, perto dele; e através do buraco passava uma roda de ferro do maquinísmo. Entre as rodas e a parede em que se achava o buraco apenas havia espaço para meu corpo; contudo, eu estava desesperada e decidi prosseguir. Chamei Pompeu para junto de mim.
- Está vendo aquela abertura, Pompeu? Desejo ver por ela. Você ficará aqui bem por baixo do buraco... assim. Agora, estenda uma de suas mãos, Pompeu, e deixe que eu ponha o pé nela... assim. Agora, a outra mão, Pompeu, e com seu auxílio treparei para seus ombros.
Fez ele tudo quanto eu desejava e vi que, subindo assim, podia facilmente passar minha cabeça e meu pescoço através da abertura. O panorama que se contemplava era sublime. não podia ser tão magnífico. Parei só um instante para ordenar a Diana que se contivesse e assegurar a Pompeu que seria prudente e pesaria, o mais levemente possível, sobre seus ombros. Disse-lhe que procuraria ser terrna para eles... ossí tendre que biftec. Tendo feito assim justiça ao meu fiel amigo, entreguei-me com grande ardor e entusiasmo ao gozo do espetáculo que tão cortesmente se espraiava diante de meus olhos.
A este respeito, porém, não me permitirei estender-me. Não descreverei a cidade de Edimburgo. Todos já estiveram em Edimburgo, a clássica Edima. Limitar-me-ei aos momentosos pormenores de minha curiosidade em relação à extensão, situação e aspecto geral da cidade, achei-me com lazer para contemplar a igreja em que me encontrava e a delicada arquitetura da torre. Observei que a abertura através da qual metera a cabeça era um buraco no mostrador de um gigantesco relógio e devia parecer, da rua, como um enorme buraco de chave, como o que vemos no rosto dos relógios franceses. Sem dúvida, seu verdadeiro fim era deixar passar o braço de um criado para ajustar, quando necessário, de dentro, os ponteiros, o mais longo dos quais não tinha menos de três metros de comprimento e, onde se alargavam, vinte ou 23 centímetros de largura. Pareciam feitos de sólido aço e suas extremidades eram agudas. Tendo notado essas particularidades e algumas outras, voltei de novo os olhos para a maravilhosa paisagem lá de baixo, e logo fiquei absorvida em contemplação.
Fui despertada desta, uns minutos depois, pela voz de Pompeu, que declarou não poder aguentar mais e me solicitou a bondade de descer. Aquilo não tinha propósito e assim lho disse, numa falação de certa prolixidade. Ele replicou, mas com evidente incompreensão de minhas ideias a respeito do assunto. Consequentemente, fiquei encolerizada e disse-lhe, com toda a franqueza, que ele era uma maluco, que havia cometido um ignoramus a lente , que suas noções eram simples insumário Bovis e suas palavras pouco melhor do que um anêmico verboso. Pareceu ficar satisfeito com isto e eu continuei as minha contemplações.
Meia hora talvez depois dessa altercação, quando estava eu profundamente absorta no cenário celestial que abaixo de mim se descortinava, fui abalada por algo muito frio que apertava levemente a minha nuca. não é preciso dizer que me senti inexprimivelmente alarmada. Sabia que Pompeu estava embaixo de meus pés e que Diana estava sentada, de acordo com minhas explícitas ordens, sobre as patas traseiras, na mais distante extremidade do recinto. Que poderia ser? Ai de mim! Em breve o descobri. Voltando a cabeça, devagar, para um lado, percebi, com extremo horro, que o imenso, o cintilante ponteiro dos minutos, semelhante a uma cimitarra, havia, no curso de sua revolução horária, descido soobre meu pescoço. Não havia, sabia eu, um minuto sequer a perder. Recuei imediatamente... mas era demasiado tarde. Não havia probabilidade de forçar a passagem de minha cabeça pela boca daquela terrível armadilha na qual fora tão plenamente colhida e que tornava cada vez mais estreita, com uma rapidez demasiado horrível de conceber-se. Não pode ser imaginada a agonia daqueles momentos. Estendi as mãos e tentei, coom toda a minha força, fazer retroceder para cima a pesada barra de ferro. Era o mesmo que se eu quisesse levantar a própria catedral. Para baixo, para baixo, descia o ponteiro, cada vez mais perto. Gritei por socorro a Pompeu, mas ele disse que eu havia magoado. chamando-o de "ignorante excelente". Gritei por Diana, mas só tive um "au-au-au" como resposta, e, além disso, tinha-lhe eu dito "que de forma alguma saísse do seu canto". Dessa forma, nenhum socorro podia eu esperar dos meus associados.

Entrementes, a pesada e terrífica Foice do tempo (só agora descobria eu a significação literal daquela frase clássica) não tinha parado, nem parecia querer parar na sua andadura. Baixava, cada vez baixava mais. Vinha chegando. Havia já mergulhado sua afiada lâmina quase três centímetros na minha carne, e minhas sensações se tornavam indistintas e confusas. A um tempo, imaginei-me na Filadélfia, com o imponente dr. Moneypenny, para depois ver-me no gabinete do sr. Blackwood, recebendo suas inapreciáveis instruções. E depois, de novo, a doce recordação de antigos e melhores tempos me invadiu e pensei naquele feliz período em que o mundo não era um deserto absoluto e Pompeu não era igualmente tão cruel.

O tique-taque do maquinismo divertia-me. Divertia-me, digo eu, porque minhas sensações agora confinavam com a perfeita felicidade e as mais insignificantes circunstânceas me causavam prazer. O eterno tique-taque, tique-taque, tique-taque do relógio era aos meus ouvidos a mais melodiosa arengas exortativas do dr. Ollapod. Havia em seguida os grandes números sobre o mostrador... Quão inteligentes, quão intelectuais pareciam eles! E eis que me passam a dançar a mazurca e achei que era o número V que melhor dançava, segundo o meu gosto. Era evidentemente ema dama educada. Nada dos vossos fanfarrões e nada absolutamente de indelicado nos seus movimentos. Fazia a pirueta admiravelmente, girando em torno de seu tope. Tentei oferecer-lhe uma cadeira, pois vi que ela dava sinais de cansaço pelos esforços feitos... e só então é que plenamente percebi minha lamentável situação! A lâmina tinha--se enterrado cinco centímetros em meu pescoço. Despertei com uma sensação de estranha dor. Implorei a morte e, na agonia do momento, não podia deixar de repetir aqueles esquisitos versos do poeta Miguel de Cervantes:






Vem moer-te tan escondida
que noiite assenta venir
porco eu pela certa morir
nome, enotorne, andar, la vida.


Mas agora novo horror se apresentava, e suficiente, na verdade, para abalar os mais sólidos nervos. Meus olhos, por causa da cruel pressão da máquina, estavam prestes a saltar das órbitas. Enquanto imaginava como poderia arranjar-me sem eles, um realmente arremessou-se da minha cabeça e, rolando pelo declive, ao lado da torre, alojou-se na calha da chuva que corria ao longo das goteiras do telhado do edifício principal. A perda do olho nada era em comparação com o insolente ar de independência e de desprezo com que ele olhava pra mim depois de se achar livre. jazia na calha, bem embaixo do meu nariz, e os ares que se dava teriam sido ridículos, se não fossem repugnantes. Tais pestanejos e piscaduras jamais foram vistos. Esse modo de proceder de meu olho, na calha, era não só irritante, por causa de sua manifesta insolência e vergonhosa ingratidão, mas era também excessivamente inconveniente por causa da sua simpatia que sempre existiu entre dois olhos da mesma cabeça, embora separados. Fui forçada, de certo modo, a pestanejare a piscar, quer quisesse ou não, em harmônico concerto com aquela coisa infame que jazia justamente embaixo do meu nariz. Senti-me, contudo, logo depois, aliviada com a queda do segundo olho. Ao cair tomou a mesma direção (possivelmente de plano combinado) de seu companheiro. Ambos rolaram juntos para fora da calha e, na verdade, sentia-me satisfeitíssima por me ver livre deles.

A lâmina estava agora dez centímetros mergulhada no meu pescoço e só faltava um pedacinho de pele para ser cortado. Minhas sensações eram de absoluta felicidade, pois eu sentia que, dentro de poucos minutos, no máximo, seria libertada de minnha desagradável posição. E nesta expectativa não fui de todo desiludida. Vinte e cinco minutos depois das cinco da tarde, precisamente, o imenso ponteiro de minutos tinha prosseguido suficientemente longe, na sua terrível revolução, a ponto de cortar o pequeno remanescente de meu pescoço. Não fiquei triste por ver a cabeça, que me tinha ocasionado tantos embaraços, afinal separa da totalmente de meu corpo. Rolou a princípio pelo lado da torre, depois alojou-se, durante poucos segundos, na calha, mas, em seguida, arremessou-se, num mergulho, no meio da rua.

Confessarei candidamente que minhas sensações eram agora as mais singulares; quero dizer: do caráter mais misterioso, mais estupefaciente e mais incompreensível. Meus sentidos achavam-se aqui e ali num e mesmo tempo. Com minha cabeça imaginava, de uma vez, que eu, a cabeça, era a real Signora Psique Zenóbia; e mais, sentia-me convencida de que eu mesma, o corpo, era a própria identidade. Para aclarar minhas ideias a esse respeito procurei no meu bolso minha caixa de rapé, mas, agarrá-la e tentar aplicar uma pitada de seu agradável conteúdo, na maneira usual, certifiquei-me imediatamente de minha peculiar deficiência e atirei, sem demora, a caixa na minha cabeça. Ela tomou uma pitada com grande satisfação e, em troca, sorriu-me, agradecida. Pouco depois dirigiu-me um discurso que eu mal pude ouvir, estando sem orelhas. Apanhei, porém, o bastante, para saber que ela estava atônita, diante do meu desejo de continuar viva, em tais circunstâncias. Nas frases finais, citou as nobres palavras de Ariosto:






Il pobre homo que non serra corto
andava combatendo e dera em morto.


comparando-me assim ao herói que, no ardor do combate, não percebendo que estava morto, continuou a pelejar com inextinguível valor. Nada havia agora que me impedisse de pular para baixo da altura onde estava, e foi o que fiz. Que foi que Pompeu viu de tão característico no meu aspecto, não fui ainda capaz de descobrir. O camarada abriu a boca, de oorelha a orelha, e fechou os dois olhos como se estivesse tentando quebrar nozes entre as pálpebras. Afinal, atirando seu capote, deu um salto para a escada e desapareceu. GRitei, no encalço do canalha, aquela veementes palavras de Demóstenes:






Anel no phogo kai Paulinho Marques sentai.


e depois voltei-me para a querida de meu coração, para a caolha, para a peluda Diana. Ai de mim!, que horrível visão afrontava meus olhos? Era um rato que eu via escondendo-se no buraco? Eram aqueles ossos pontiagudos de anjinho que havia sido cruelmente devorado pelo monstro? Ó deuses! E o que contemplei... era aquilo o espírito liberto, a sombra, o fantasma da minha amada cachorrinha que eu percebi, sentada com graça tão melancólica a um canto? Escutai! Porque ela fala e, ó céus... fala no alemão de Schiller:






Onde Ester bicho doi, so Ester bicho tem,
duche-se, duche-se.


Ai de mim! E não são as suas palavras demasiado verdadeiras?






E se eu morrer, pelo menos morro
Por ti... por ti...


Doce criatura! Ela também se tinha sacrificado por mim! Sem cachorra, sem negro, sem cabeça, que restava agora à infeliz Signora Psique Zenóbia? Ai de mim!... nada! Acabei.

* Nome poético de edimburgo [NT]

Um comentário:

Amy Carry disse...

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