terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A MÁSCARA DA MORTE RUBRA

A MÁSCARA DA MORTE RUBRA

Publicado pela primeira vez no Graham's Lady ’s and Gentlemans Magazine, 
maio de 1842. Título original: THE MASK OF THE RED DEATH: FANTASY.


DURANTE muito tempo devastara a "Morte Rubra" aquele país. Jamais se vira
peste tão fatal e tão terrível. O sangue era a sua encarnação e o seu sinete: a
vermelhidão e o horror do sangue. Apararecia  com agudas dores e súbitas
vertigens, seguindo-se profusa sangueira pelos poros e a decomposição.
Manchas escarlates no corpo e sobretudo no rosto da vítima eram o anátema da
peste, que a privava do auxílio e da simpatia de seus semelhantes. E toda a
irrupição  progresso e término da doença não duravam mais de meia hora.



Mas o Príncipe Próspero era feliz, destemido e sagaz. Quando  seus domínios se
viram despovoados da metade de seus habitantes mandou chamar à sua
presença um milheiro de amigos sadios e  joviais dentre os cavalheiros e damas
de sua corte, retirando-se  com eles, em total reclusão, para uma de suas abadias
fortificadas.  Era um edifício vasto e magnífico,  criação de príncipes de gosto
excêntrico, embora majestoso. Cercava-o forte e elevada muralha com portas de
ferro. Logo que entraram, os cortesãos trouxeram fornos e pesados martelos para
rebitar os ferrolhos. Tinham  resolvido não proporcionar meios de entrada ou
saída aos súbitos impulsos de desespero dos de fora ou ao frenesi dos de dentro.
A abadia estava fartamente provida. Com tais precauções, podiam os cortesãos
desafiar o contágio. Que o mundo exterior se arranjasse por si. Enquanto isso, de
nada valia nele pensar, ou afligir por sua causa. Providenciara o príncipe para que
não faltasse diversões. Havia jograis, improvisadores, bailarinos. músicos. Havia
beleza e havia vinho. Lá dentro, tudo isso e segurança. Lá fora a "Morte Rubra".
Foi quase ao término do quinto ou sexto mês de sua reclusão enquanto a peste
raívava mais furiosamente lá fora, que o Príncipe Próspero ofereceu a seus mil
amigos um baile de máscaras da mais extraordinária magnificência.

Que voluptuosa cena a daquela mascarada! Mas antes descresvemos os salões
em que ela se desenrolava. Era uma série imperial
de sete dões. Em muitos palácios, contudo, tais sucessões de salas formavam
uma longa e reta perspectiva quando as portas se abrem de par em par não
havendo quase obstáculo à perfeita visão de todo o conjunto . Aqui, o caso era
bastante diverso, coisa aliás de esperar do amor do duque pelo fantástico. Os
aposentos estavam tão irregularmente dispostos que a visão abrangia pouco
mais de um de cada vez. De vinte ou de trinta em trinta jardas havia uma curva
aguda e, a cada curva, uma nova impressão.

A direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma enorme e estreita janela
gótica abria-se para um corredor fechado que acompanhava as voltas do
conjunto. Essas janelas eram providas de vitrais, variava de acordo com o tom
dominante das decorações do aposento para onde se abriam. O da extremidade
oriental, por exemplo era azul, e de azul vivo eram suas janelas. O segundo tinha
ornamentos e tapeçarias purpúreos, e purpúreas eram as vidraças. O terceiro era
todo verde, e verdes eram também as esquadrias  das janelas. O quarto estava
mobiliado e iluminado com laranjada. O quinto era branco, e o sexto, roxo. O
sétimo o estava totalmente coberto de tapeçarias de veludo preto, que pendiam
do teto e pelas paredes, caindo em pesadas dobras um tapete do mesmo material
e da mesma cor. Mas somente nesta sala a cor das janelas não correspondia à
das decorações. As vidraças ali, eram escarlates, da cor de sangue vivo.

Ora, em  nenhum daqueles sete salões havia qualquer lâmpada ou candelabro em
meio à profusão de ornamentos dourados que se espalhavam por todos os
cantos ou pendiam do forro. Luz de éspecie alguma emanava de lâmpada ou vela,
dentro da série de salas. Mas, nos corredores que acompanhavam a perspectiva,
erguia-se  em frente de cada janela, uma pesada trípode com um braseiro  que
projetava seus raios pelos vitrais coloridos e assim iluminava deslumbrantemente
a sala, produzindo numerosos aspectos vistosos e fantásticos. Na sala negra,
porém, o efeito do clarão dava sobre as negras cortinas, através das vidraças
tintas de .sangue, era extremamente lívido e dava uma aparência tão estranha às
fisionomias dos que entravam que poucos eram os bastante ousados para nela
penetrar.

Era também nesse salão que se erguia, encostado à parede que dava para oeste,
um gigantesco relógio de ébano. O pêndulo osciava para lá e para cá, com um
tique-taque vagaroso, pesado, monotono.  E quando o ponteiro dos minutos
concluía o circuito do mostrador e a hora ia soar, emanava dos pulmões de
bronze do relógio um som claro, elevado, agudo e excessivamente musical,
enfático e característico que, de hora em hora, os músicos da  orquestra viam-se
forçados a parar por instantes a execução da musica para ouvir-lhe o som: e
dessa forma, obrigatoriamente, cessavam os dançarinos suas evoluções e toda a
alegre companhia sentia-se por instantes, perturbada. E enquanto os carrilhões
do relógio ainda soavam,  observava-se que os mais alegres tornavam-se pálidos
e os mais idosos e serenos passavam as mãos pela fronte,
como se em confuso devaneio ou meditação. Mas quando os ecos cessavam por
completo, leves risadas imediatamente contagiavam a  reunião; os músicos
olhavam uns para os outros e sorriam de seu próprio nervoso e loucura, fazendo
votos sussurrados, uns aos outros para que o próximo carrilhonar do relógio não
produzisse idêntica emoção. E, no entanto, passados os sessenta minutos ( que
abarcam três mil e seiscentos segundos do Tempo que voa), ou  de novo outro
carrilhonar do relógio, e de novo se viam a mesma  perturbação, o mesmo tremor,
as mesmas atitudes medítativas a despeito, porém, de tudo isso, que esplêndida e
magnífica folía.

O duque tinha gostos característicos. Sabia escolher cores e efeitos . Desprezava
os ornamentos apenas em moda. Seus desenhos muito audazes e vivos, e suas
concepções esplendiam com um lustre bárbaro. Muíta gente o julgava louco. Mas
seus cortesãos achavam  que não. Era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo, para se
estar certo que ele não o era.

Por ocasião dessa grande festa, dirigira ele próprio, em grande parte, os mutáveis
adornos dos sete salões e fora o seu próprio gosto orientador que escolhera as
fantasias. Mas não havia dúvidas de que eram grotescas. Havia muito brilho,
muito esplendor, na coisa berrante e fantastica - muito disso que depois se viu  no
Hernani. Havia formas arabescas, com membros e adornos disporcionados.

Havia concepções delirantes, como criações de louco; havia muito  de belo e
muito de atrevido, de esquisito, algo de terrível e pouco do que poderia causar
aversão. Na realidade, uma multidão  de sonhos deslizava para lá e para cá nas
sete salas. E estes sonhos  giravam de um canto para outro, tomando a cor das
salas, e fazendo  a música extravagante da orquestra parecer o eco de seus
passos.

Mas logo soava o relógio de ébano que se erguia na parede de veludo. E então,
durante um instante, tudo parava e tudo silenciava  exceto a voz do relógio. Os
sonhos paravam, como que gelados. ecos do carrilhão, porém, morriam - haviam
durado apenas um instante --, e uma leve gargalhada, mal contida, acompanha os
ecos que morriam. E logo depois a música explodia, e os sonhos  reviviam e
rodopiavam mais alegremente do que dantes, tingiam da cor das janelas
multicoloridas, através das quais se filtrava ,os  luminosos raios das trípodes. Mas
então nenhum dos mascarados  se aventurava até a sala que, entre as sete, mais
ao ocidente encontrava, porque a noite estava declinando e ali dimanava luz mais
vermelha através das vidraças sanguineas, e o negrol dos panejamentos
tenebrosos apavorava. E, para aqueles cujos pés pisavam o tapete negro, do
relógio de ébano ali perto provinha rumor abafado, mais solenemente enfatico do
que o que alcaçava  os ouvidos de quem se comprazia nas alegrias dos outros
aposentos mais distantes.

Mas esses outros aposentos estavam densamente apinhados e palpitava
febrilmente o coração da vida. E a folia continuou a rodopiar, até que afinal o
relógio começou a soar a meia-noite. E, então
a música parou, como já disse; e aquietaram-se as evoluções  dos dançarinos; e,
como dantes, houve uma perturbadora parada de tudo. Mas agora o carrilhão do
relógio teria de bater doze pancadas. E por isso aconteceu talvez que maior
número de pensamentos, e mais demoradamente, se inserisse nas meditações
daqueles que, entre os que se divertiam, meditavam. E por isso talvez aconteceu
também que, antes de silenciarem por completo os derradeiros  ecos da última
pancada, muitos foram os indivíduos, em meio a  multidão, que puderam certificar-
se da presença de um vulto mascarado que até então não havia chamado a
atenção de niguém, tendo-se espalhado, aos cochichos, a notícia dessa nova
presença elevou-se imediataniente dentre a turba um burburinho ou múrmurio que
exprimia desaprovação e surpresa a princípio e, terror, horror e náusea.

Numa assembléia de fantasmas, tal como a descrevi, bem se pode supor que tal
agitação não podia ter sido causada por aparência vulgar. Na verdade, a licença
carnavalesca da noite quase ilimitada; mas o vulto em questão excedia o próprio
Herodes em extravagância e ia além dos limites indecisos de decência exigidos
pelo próprio príncipe. Há no coração dos mais levianos fibras que não podem ser
tocadas sem emoção. Mesmo para os mais divertidos, para quem a vida e a morte
são idênticos brinquedos assuntos com os quais não se pode brincar. Todos os
presentes de  fato, pareciam agora sentir profundamente que nos trajes e atitudes
do estranho não havia finura nem conveniência. Era alto e lívido, e envolvia-se, da
cabeça aos pés, em mortalhas tumular. A  máscara que ocultava o rosto era tão de
modo a quase representar  a fisionomia de um cadáver enrijecido que a
observação acurada teria dificuldade em perceber o engano.

E, contudo, tudo isso poderia tolerar-se, se não mesmo aprovar-se, pelos loucos
foliões, não tivesse o mascarado ido ao de figurar o tipo da "Morte Rubra". Seu
traje estava salpicado de  sangue, e a ampla testa, assim como toda a face,
borrifada de rendas placas escarlates. Quando os olhos do Príncipe Prospero
caíram sobre aquela imagem espectral (que, em movimentos lentos e solenes,
como se quisesse representar mais completamente seu papel, rodopiava aqui e
ali entre os dançarmos), viram-no ser tomado  de convulsões, a princípio um forte
tremor de pânico ou repugnância, para logo depois enrubescer-se de raiva.
-Quem ousa - perguntou ele, roucamente, aos cortesãos que  o cercavam -, quem
ousa insultar-nos com tão blasfema pilhéria?  Agarrem-no e desmascarem-no,
para podermos conhecer quem teremos de enforcar, ao amanhecer, no alto das
ameias!

Ao pronunciar estas palavras achava-se o Príncipe Próspero no  salão dourado e
azul, do lado do poente. Elas atravessaram todas as sete salas, alta e claramente,
pois o príncipe era um homem ousado  e robusto e a música havia silenciado a
um gesto de sua mão.

Era no salão azul que se achava o príncipe, tendo ao lado um grupo de cortesãos
pálidos. Logo que ele falou, houve um
leve movimento de investida por parte daquele grupo na direção do intruso no
momento, se encontrava quase ao alcance da mão, em passadas firmes e
decididas, mais se aproximava do principe. Mas em virtude de um indefinível
terror que a todos os presentes causara o louco atrevimento do mascarado, não
se achou que ousasse estender a mão para agarrá-lo. De modo que, sem
impecilho, passou a uma jarda do príncipe, e, enquanto toda a assembléia, como
movida por um só impulso, recuava do centro das salas para as paredes, seguiu
ele seu caminho sem deter-se com os mesmos passos solenes e medidos que
desde o haviam distinguido, do saláo azul ao salão purpúreo, do púrpuro  ao
verde, do verde ao alaranjado, deste ao branco e até o roxo, sem que um
movimento de decisão se fizesse para detê-lo. Foi então, porém, que o Príncipe
Próspero, enlouquecido de vergonha de sua própria e momentânea covardia,
correu precipitadamente através das seis salas, sem que ninguém o seguisse,
pois um terror mortal de todos se apossara. Brandia um punhal desembanhado e
se aproximara, com rápida impetuosidade, a poucos passos do vulto que se
retirava, quando este último, tendo alcançado a extremidade do salão de veludo,
voltou-se subitamente e arrostou seu perseguidor. Ouviu-se um grito agudo e o
punhal caiu, cintilante sobre o negro tapete, onde, logo, instantaneamente,
tombou mortalmente abatido o Príncipe Próspero. Então, recorrendo a coragem
selvagem do desespero, numerosos foliões lançaram-se sem demora no lúgubre
aposento, e, agarrando o mascarado, cujo alto vulto permanecia ereto e imóvel
dentro da sombra do relógio de ébano, pararam, arfantes de indizível pavor, ao
sentir que nenhuma forma tangível se encontrava sob a mortalha e por trás da
mascara cadavérica, quando as seguraram com violenta rudeza.

E foi então que reconheceram estar ali presente a "Morte Rubra". Ali penetrara,
como um ladrão noturno. E um a um, foram todos os folióes, nos salões da orgia,
orvalhados de sangue, morrendo na mesma posição desesperada de sua queda.

E a vida do relógio de ébano se extinguiu com a do último dos foliões. E as
chamas das trípodes expiraram. E o ilimitado poder da Treva, da Ruína, e da
"Morte Rubra" dominou tudo.

5 comentários:

Tainã Steinmetz disse...

Olá, obrigada pela visita!!!

Aceito parceria, sim ^^ Já coloquei seu banner aqui: http://cenasdaminhamemoria.blogspot.com/2009/07/cena-19-parceiros.html

Abraços!!!

Kiki K. disse...

Boa tarde, muito interessante o trabalho de vocês, divulgar Allan Poe, uma de minhas obras favoritas dele é Lenore tão obscuro e triste ao mesmo tempo.
Gostaria de fazer parceria com vocês, de qualquer forma estou colocando o banner e ele vai ficar lá em meu blog.
Abraços!

Kiki K. disse...

Hiuahaiuh Vc foi fazer um Forever Alone no meu site é?:"D aiai eu ri, já imaginei aquela "cara" mas blz '-' uihauih, o pessoal aparece mais de madrugada mesmo x.x lá weeeird people.
E com certeza, pode me indicar o que achar interessante, tenho certeza de que será bom conteúdo.
Bjus e obrigada novamente o/

Maria disse...

Oi boa noite, tudo bem?
Eu achei seu blog o maximo! Apesar de não saber muito do Poe, gosto desse clima de terror e misterio que paira em suas obras (pelo menos nas que li, rs)
Ah esse conto da Morte Rubra eu li outro dia na biblioteca, adorei...já li uns outros tbem....estou me interessando cada vez mais pelo Poe, rs! ^^
Ah, mas além disso, vim agradecer a sua visita em meu blog e por comentar em meus desenhos...mas deixa eu perguntar, vc desenha, ilustra né? vc não tem um blog disso? Cara, eu li no comentario que vc acha que eue tenho um traço bom, mas eu me confundo muito sabe, deesenho de tudo e acho que não defini beeem o meu traço proprio....vc achou aquilo mesmo? Pois eu preciso saber o que as pessoas acham do meu estilo, serio mesmo!!!
Brigada pelos comentarios e por saber que gostou ^^
...e tbem pelas boas vindas ao seu blog, bem vindo ao meu tbem!

Até mais

Maria disse...

cara, desculpe pelo ''texto gigante'' rs! ^^